Os Descendentes é um belo exemplo de como fazer bom cinema usando o cotidiano das pessoas como matéria-prima. Honesto e realista, consegue fazer rir e chorar sem recair nos lugares-comuns típicos dos filmes do gênero drama familiar.
São 117 minutos de um trabalho eficiente versando sobre a condição humana e a capacidade nossa de encontrar humor e alento diante das mais atrozes adversidades. Um filme sobre resistência, sobre o ímpeto de ir adiante apesar dos inevitáveis (e muitas vezes inexoráveis) revezes da vida. Por isso, fica impossível não se identificar com as emoções vividas pelos personagens, que conquistam o espectador desde o começo da projeção.
Logo no início somos apresentados ao cotidiano de Matt King (George Clooney, seguro e eficiente) por ele mesmo. Trata-se de um pai e marido que sempre se dedicou ao trabalho e agora precisa encarar uma tragédia familiar, que acaba se tornando mais complicada do que ele imaginava. Em paralelo, Matt também é responsável pela venda de um grande terreno herdado por seus antepassados, descendentes da realeza do Havaí.
O modo como a personagem de Clooney vai lidando com as adversidades é uma lição de sutileza cinematográfica. O diretor Alexander Payne (de
A Eleição e
Sideways - Entre Umas e Outras) é um maestro na arte de trafegar com eficiência entre as fronteiras da comédia e drama. Por vezes o espectador se vê diante de momentos do filme que não sabe se o melhor é rir ou chorar. Assim como na vida, afinal. O interessante é ver que
Os Descendentes vem ganhando aprovação da crítica e do público ao redor do mundo contando uma história distante dos grandes dramas que costumam amealhar prêmios e agradar os especialistas. Payne optou por contar uma pequena história, mas não menos comovente e pungente. E o fez com rara eficiência.
A trama de
Os Descendentes é conduzida por seus personagens. É neles que está a história. Assistimo-os aprendendo a lidar com a dor, com o momento de dizer adeus, com a perda. Vivemos esse filme através deles e suas idiossincrasias. Clooney é a estrela do filme, conduzindo seu papel com destreza e comedimento e abrindo espaço para os outros brilharem. Em especial a jovem atriz Shailene Woodley, como sua filha de 17 anos, uma rebelde aparentemente sem causa, mas que o espectador descobre ter razões para o ser.
Payne sintetiza a diversidade e complexidade do ser humano em seu trabalho, sem dúvidas o mais maduro dos seus filmes em clareza narrativa. Um longa inspirador a mostra que não basta ter uma boa história em mãos, é preciso saber transformá-la em experiência de cinema. E Alexander Payne, insdiscutivelmente, soube.