Precisamos Falar Sobre o Kevin promove um mergulho pungente no submundo de duas pessoas (mãe e filho) marcadas pelo ato monstruoso de um deles, Kevin, um jovem capaz de inspirar na audiência os piores receios sobre a paternidade. Adaptado do romance de Lionel Shriver, o filme é uma experiência dilacerante e impossível de apagar da mente depois de encerrada a sessão. A intensa experiência de assistir ao longa vai acompanhá-lo por dias, mesmo semanas depois de vê-lo.
O filme começa mostrando Eva (Tilda Swinton), uma mulher abatida, sozinha e socialmente marginalizada por um motivo não explicado. A partir daí a trama transita entre passado e presente e vamos sendo apresentados ao desenrolar dos eventos que levaram à atual situação de Eva: um crime perpetrado por seu filho em uma escola. Mas que crime? Por quê? Todas as respostas vão sendo dadas ao espectador em doses homeopáticas num trabalho narrativo elogiável da escocesa Lynne Ramsay.
Diante desse exercício magistral de culpa e horror que se desenrola diante dos olhos, o espectador é levado a vários questionamentos: É justo condenar a mãe de Kevin pelos atos dele? São os pais os culpados pela conduta violenta de seus filhos adolescentes? E se pais dedicados tiverem filhos de índole ruim? A responsabilidade por seus atos, ainda assim, seria deles?
Como Eva, Tilda Swinton está simplesmente perfeita em todas fases da vida na qual a personagem é mostrada. Ver a atriz desenvolvendo o processo de decadência e destruição íntima pelo qual passa a personagem é impressionante. É esta mulher nascida para o cinema que incorpora a Eva jovem, uma mulher livre e de espírito alegre a correr o mundo atrás de aventuras. Na cena de abertura ela está mergulhada no vermelho vivo dos tomates em uma celebração de colheita tradicional na Itália.
Um salto no tempo e a atriz incorpora a dor, o desamparo e o sofrimento de uma mãe constantemente agarrada à esperança de que suas impressões sobre o filho estejam equivocadas. E, no tempo presente, a vemos como um resquício de mulher tentando sobreviver à tragédia e rejeição.
Em todos os períodos, o vermelho é recorrente em sua vida, como quando raspa a tinta vermelha jogada em sua casa e carro por vizinhos que a culpam pelo ato do filho. Ou, então, quando seu filho espalha tinta vermelha em toda a sua sala de mapas, destruindo sua tentativa de ter um espaço só seu. Um vermelho que simboliza o sangue e a tragédia que permeiam a vida de Eva.
Vale destacar também o bom trabalho do ator Ezra Miller, que interpreta o sombrio Kevin na adolescência. Ele está assustadoramente convincente ao dar vida a um jovem tomado por um misto de desprezo entediado e ódio por aqueles que o cercam.
Precisamos Falar Sobre Kevin tem estilo visual arrojado (atentem para a ótima fotografia) e um roteiro brilhantemente estruturado, empregando uma narrativa fragmentada que desorienta em alguns momentos e arrebata em outros. Imperdível para quem deseja uma experiência na sala de cinema provocativa e, ao mesmo tempo, devastadora emocionalmente.