26/01/2012 12h01
PRECISAMOS FALAR SOBRE O KEVIN
Nota Cineclick
Roberto Guerra
Precisamos Falar Sobre o Kevin Precisamos Falar Sobre o Kevin promove um mergulho pungente no submundo de duas pessoas (mãe e filho) marcadas pelo ato monstruoso de um deles, Kevin, um jovem capaz de inspirar na audiência os piores receios sobre a paternidade. Adaptado do romance de Lionel Shriver, o filme é uma experiência dilacerante e impossível de apagar da mente depois de encerrada a sessão. A intensa experiência de assistir ao longa vai acompanhá-lo por dias, mesmo semanas depois de vê-lo.

O filme começa mostrando Eva (Tilda Swinton), uma mulher abatida, sozinha e socialmente marginalizada por um motivo não explicado. A partir daí a trama transita entre passado e presente e vamos sendo apresentados ao desenrolar dos eventos que levaram à atual situação de Eva: um crime perpetrado por seu filho em uma escola. Mas que crime? Por quê? Todas as respostas vão sendo dadas ao espectador em doses homeopáticas num trabalho narrativo elogiável da escocesa Lynne Ramsay.

Diante desse exercício magistral de culpa e horror que se desenrola diante dos olhos, o espectador é levado a vários questionamentos: É justo condenar a mãe de Kevin pelos atos dele? São os pais os culpados pela conduta violenta de seus filhos adolescentes? E se pais dedicados tiverem filhos de índole ruim? A responsabilidade por seus atos, ainda assim, seria deles?

Como Eva, Tilda Swinton está simplesmente perfeita em todas fases da vida na qual a personagem é mostrada. Ver a atriz desenvolvendo o processo de decadência e destruição íntima pelo qual passa a personagem é impressionante. É esta mulher nascida para o cinema que incorpora a Eva jovem, uma mulher livre e de espírito alegre a correr o mundo atrás de aventuras. Na cena de abertura ela está mergulhada no vermelho vivo dos tomates em uma celebração de colheita tradicional na Itália.

Um salto no tempo e a atriz incorpora a dor, o desamparo e o sofrimento de uma mãe constantemente agarrada à esperança de que suas impressões sobre o filho estejam equivocadas. E, no tempo presente, a vemos como um resquício de mulher tentando sobreviver à tragédia e rejeição.

Em todos os períodos, o vermelho é recorrente em sua vida, como quando raspa a tinta vermelha jogada em sua casa e carro por vizinhos que a culpam pelo ato do filho. Ou, então, quando seu filho espalha tinta vermelha em toda a sua sala de mapas, destruindo sua tentativa de ter um espaço só seu. Um vermelho que simboliza o sangue e a tragédia que permeiam a vida de Eva.

Vale destacar também o bom trabalho do ator Ezra Miller, que interpreta o sombrio Kevin na adolescência. Ele está assustadoramente convincente ao dar vida a um jovem tomado por um misto de desprezo entediado e ódio por aqueles que o cercam.

Precisamos Falar Sobre Kevin tem estilo visual arrojado (atentem para a ótima fotografia) e um roteiro brilhantemente estruturado, empregando uma narrativa fragmentada que desorienta em alguns momentos e arrebata em outros. Imperdível para quem deseja uma experiência na sala de cinema provocativa e, ao mesmo tempo, devastadora emocionalmente.


 
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ÚLTIMOS COMENTÁRIOS
SERGIO LUIZ DOS SANTOS PRIOR - 11/02/2012 12:21
Muito embora o crítico de literatura do Jornal A Tribuna, de Santos, Alfredo Monte confirme o bordão de que o livro é sempre superior ao filme, a autora do livro que deu origem ao filme, Lionel Shriver (uma mulher, apesar do nome), apreciou a adaptação. O livro "PRECISAMOS FALAR SOBRE O KEVIN" foi premiado com o Orange Prize em 2005. É importante frisar que a narrativa não é linear. O filme já começa após a matança que Kevin promoveu na sua escola quando estava prestes a completar 16 anos. Eva (Tilda Swinton) é uma mulher que se vê no centro de uma tempestade de revolta por parte da população local que a culpam por não ter estabelecido limites, e de alguma forma permitir que o seu filho Kevin cometesse as atrocidades que culminaram na morte de inúmeros adolescentes. O fardo de Eva se inicia logo após o nascimento de Kevin. Eva percebe desde o início que deu a luz a uma espécie de Damien, um monstro ou psicopata, como queiram. O mal personificado. Sua penitência será conviver com Kevin. Não há justificativa para o comportamento do filho. Não há grandes traumas. Ninguém passou necessidades. Exceção feita à permissividade (John C. Reilly) com cara de otário o tempo todo, a propensão que o filósofo Kant apontava no ser humano como uma tendência intrínseca (assim como o bem) parece elevada ao grau máximo em Kevin. Mentiroso, manipulador, calculista, só interessado única e exclusivamente em seu próprio prazer. Se Eva tinha dúvidas entre ser mãe e se dedicar ao seu trabalho, ela certamente voltaria no tempo e não teria engravidado de Kevin. O drama e o sofrimento solitário de Eva são comoventes, pois viver com a culpa dos atos insanos do filho não é tarefa fácil. O pecado de "Eva", ou seja, de todas as mães do mundo beira o insuportável. Roteiro e direção na medida. O mesmo se aplica à trilha sonora do guitarrista do grupo Radiohead, Jonny Greenwood ora é hilária, ora cria uma tensão maior no filme. Não é para todos os gostos, mas o filme é um tratado sobre a maldade humana.


Sandra Ney - 10/02/2012 22:41
Um filme impactante,todos os pais deviam assistir, porque as famílias gostam de não ver quando a doença se instala. No filme me parece que o menino é claramente um psicopata e a família, com todo o "psicologismo" atual que torna as relações pais-filhos cada vez mais formais e menos naturais, fingem que nada acontece, o filho fica cada vez mais sem limites a mãe sempre culpada, o pai sempre fantasioso e aí está criado o cenário para a tragédia. Os atores são maravilhosos, eu sou fã da Tilda Swinton. Vale a pena assistir
Maria Teresa - 06/02/2012 19:09
Com o devido respeito a opinião alheia, afirmo: danem-se os "simbolismos exagerados e nada sutis...", o filme é para mim um soco no útero, uma pancada nos seios, um direto no queixo. "Precisamos Falar sobre o Kevin" é um desses raros filmes a falar sobre o ponto de vista da família do assassino. Já imaginaram como se sentem a família Nardoni/Jatobá diante do cruel assassinato da neta pelo próprio pai e madrasta? Já imaginaram como se sentem os pais dos irmãos Cravinhos? Conseguem imaginar o olhar de desprezo dos vizinhos, dos amigos, dos próprios familiares? Ora, achar "sem sentido a hostilidade" contra a mãe do assassino é não reconhecer a capacidade do ser humano em praticar o linxamento físico ou moral contra quem está impossibilitado de se defender. Filme magnífico para ser assistido diversas vezes graças as diversas camadas de seus personagense situações familiares, como a difícil relação mãe e filho. Filme inesquecível, graças ao seu roteiro, direção e elenco, especialmente, a criança e o adolescente Kevin. Por favor, se você fica perdido(a) com filmes com "narrativas fragmentadas" (como A Árvore da Vida) não assista este filme.
Roberto - 04/02/2012 13:56
Concordo em parte com o Fernando. Achei os simbolismos exagerados e nada sutis. Forçou a barra na poesia. E tb achei meio sem sentido tanta hostilidade com a personagem (não leia o resto do comentário se não tiver visto o filme), afinal ela tb foi uma vítima, pois perdeu o marido e uma filha que ainda era uma criancinha. Não faz sentido as pessoas culparem-na tanto. Mas tirando isso, o filme é excelente! Saí do cinema com um nó no estômago. A fotografia é realmente belíssima! As atuações muito boas! E, respondendo ao Fernando, ela não saiu de onde estava para ficar perto do filho, afinal, mesmo diante de tudo, ela é mãe e ele era o que sobrou de sua família.