Críticas

Veja o que esperar das novidades nas telonas e estreias com os comentários da nossa equipe especializada.

O MESTRE

(The Master, 2012)

Estrela ativa Estrela ativa Estrela ativa Estrela ativa Estrela ativa Estrela ativa Estrela ativa Estrela ativa Estrela inativa Estrela inativa
17/01/2013 19h20
por Daniel Reininger
O fervor religioso e o perigo dos cultos diante da fragilidade humana são os temas do novo filme de Paul Thomas Anderson (Magnólia). O cineasta se aventura em um terreno perigoso e fértil, sem medo de expor o fanatismo de movimentos como a Cientologia, controversa seita que prega o método científico como caminho para a evolução e cujo surgimento é abordado de forma ficcional nesta obra.

Ambientada em 1950, diante da decadência do pós-guerra, a trama mostra personagens perdidos, perambulando dia após dia tentando encontrar um sentido para vida, sentimento para o qual “A Causa” é a solução. É aí que entra Lancaster Dodd (Philip Seymour Hoffman), o mestre, que descreve a si mesmo como escritor, doutor, físico nuclear, filósofo, professor e profeta. Como líder do movimento, ele prega que os membros de seu grupo não são como os outros animais, mas sim pessoas “elevadas” – exatamente o que seu rebanho precisa ouvir.

Dodd, personagem inspirado no romancista e fundador da Cientologia, L. Ron Hubbard, é um líder espiritual carismático, charlatão, que realmente acredita em um mundo melhor, desde que gire em torno de si. É interpretado de forma magnífica por Hoffman, de fato convincente no papel.

Só que o verdadeiro protagonista é Freddie Quell (Joaquin Phoenix), revoltado veterano da Segunda Guerra Mundial, viciado em sexo, que vaga pelos Estados Unidos sem achar seu lugar no mundo. Phoenix está magro como nunca e sua aparência debilitada reforça a atuação explosiva e intensa – não à toa está faturando indicações e prêmios ao redor do mundo. O mesmo vale para Hoffman. Juntos, os dois soltam faíscas na tela, alternando momentos de ternura e amizade com discussões calorosas. Enquanto um tenta exercer poder o outro mostra resistência até o fim.

A relação conturbada dura anos e o desapontamento é mútuo, mas a amizade (se é que pode ser chamada assim) é abalada de vez por Peggy Dodd (Amy Adams), esposa de Lancaster e única mulher a não assumir um papel submisso na organização. Muitas vezes, parece ser quem dá as ordens ali. Ela nunca gostou da atitude de Freddie e toma as rédeas mais de uma vez para manter o controle de sua comunidade, perplexa diante da relação de mestre e discípulo.

Embora Anderson dirija mais uma vez com eficiência, quem acompanha o cineasta pode se decepcionar com a falta de cenas marcantes, como a chuva de sapos de Magnólia, por exemplo. O Mestre, entretanto, apresenta a mesma relação de amor e ódio que o diretor adora explorar, como o do padre e do assassino em Sangue Negro. A diferença é que aqui a sede por petróleo de Daniel Day-Lewis é substituída pela busca dos protagonistas por amor, poder e controle.

Visualmente provocante, o filme apresenta uma incrível atmosfera do período. Graças, em parte, à captura em 65 mm, formato que não é utilizado desde o final do século 20, e garante uma imagem maior, com mais detalhes e clareza. A bela fotografia é crucial para o impacto emocional, pois escancara o sentimento e o peso a cada cena.

Sem apresentar respostas, O Mestre é um drama intimista e envolvente, que não funcionaria sem a entrega, tanto dos personagens às suas crenças e loucuras quanto dos atores aos seus papeis. Sem medo de criar uma discussão filosófica, pode deixar muita gente incomodada, pois seu final é incapaz de fazer jus à carga emocional construída ao longo de suas duas horas. Entretanto, assim como a vida, o que importa é a jornada e não a grandiosidade de seu desfecho.

Daniel Reininger

Editor-Chefe

Fã de cultura pop, gamer e crítico de cinema, é o Editor-Chefe do Cineclick.

FAVORITAR

crítica NÃO FAVORITADA

COMPARTILHE:

COMENTAR

comments powered by Disqus
Parceiro R7