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CONTATOS DE 4º GRAU

(The Fourth Kind, 2009)

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23/12/2009 16h17
por Celso Sabadin
Tudo bem que Cinema seja ilusão e fantasia. Porém, daí a mentir descaradamente para a plateia, já se configura num caso de Procon. A farsa acontece no filme Contatos de 4º Grau, que se inicia logo com uma advertência: surge na tela a atriz Milla Jovovich que se apresenta como ela mesma (logo, não vive um personagem neste momento) e explica diretamente para o público que estamos para ver cenas perturbadoras. Isso por que - segundo a atriz - as filmagens foram baseadas no trabalho de pesquisa de uma suposta Dra.Tyler, psiquiatra que viveu e trabalhou numa pequena cidade chamada Nome, no Alaska, e investigou a fundo casos terríveis de abduções alienígenas.

A partir daí, Contatos de 4º Grau mistura cenas ficcionais com cenas (supostamente) reais, filmadas pela Dra. Tyler. Há inclusive vários momentos nos quais a tela é dividida entre cenas ficcionais e “reais” para mostrar ao público o quanto a produção foi fiel ao material “verdadeiro”. O grande problema, porém, é que tudo é mentira. Lançado nos EUA no mês passado (novembro de 2009), o filme levantou suspeitas e suscitou investigações que rapidamente comprovaram a farsa. Não existe nem nunca existiu nenhuma Dra. Abigail Tyler clinicando no Alaska e os sites sobre suas supostas pesquisas foram todos inventados e colocados no ar pouco tempo antes da estreia do filme, como parte de uma campanha publicitária. E, para piorar, a Universal Pictures, produtora do filme, se recusou a comentar o caso.

A única verdade em tudo isso é que aconteceram, comprovadamente, casos de pessoas desaparecidas no local. Foram 24 desaparecimentos sem solução nos últimos 40 anos, fato que o FBI atribui ao alcoolismo. Vale lembrar que a maioria dos habitantes da cidade citada no filme é composta por indígenas, muitos deles com dificuldades de adaptação à civilização branca. Todo o resto é pura ficção.
O cinéfilo mais escolado não terá muitos problemas em perceber a armação. Chama a atenção a extrema facilidade com que todos os pacientes “reais” da Dra. Tyler se submetem ao hipnotismo em rápidos segundos. E como eles têm vozes e posturas de atores e atrizes. Quase nunca gaguejam. Também soa muito falsa a “verdadeira” entrevista concedida pela Dra. Tyler a um canal de TV Universitário. Já enlouquecida, ela dá o seu relato com extrema segurança e pouca emoção, também praticamente sem gaguejar. E, já nos créditos finais, onde se ouvem supostas gravações reais de pessoas telefonando para a polícia comunicando que viram OVNIs, é inacreditável como todos os depoimentos são calmos, serenos e - pasmem - sem gaguejar. Como é possível que alguém que acaba de ver um disco voador e liga para polícia consiga passar o seu relato com tamanha tranquilidade?

Não fosse a grande mentira inicial, Contatos de 4º Grau poderia até ser um suspense eficiente. Seu roteiro fala de uma psiquiatra que começa a receber pacientes cada vez mais perturbados. Eles não se conhecem entre si, mas todos contam a mesma história: à noite, pouco antes de dormir, são atormentados pela visão de uma coruja branca. Aos poucos vão sendo acometidos por crises de insônia, e eventualmente enlouquecem. Este primeiro mistério, que consome aproximadamente de 30 a 40 minutos do roteiro, já foi devidamente estragado pelo trailer, que revela que na verdade a coruja é... bom, prefiro não estragar a primeira meia hora do filme. A partir daí, as investigações da Dra. Tyler se tornam cada vez mais aterrorizantes. Para ela.

Que fique bem claro: não há problema nenhum em Contatos de 4º Grau ter criado uma história ficcional sobre um pequeno fio de história real. O Cinema faz isso todos os dias. O grande problema é a sua abertura, fora de ética, clara e diretamente tentando ludibriar o público pagante. Em Atividade Paranormal, por exemplo, os produtores deixaram tudo em aberto, eliminaram os créditos e cada um que pense o que quiser. Faz parte do jogo do Cinema. Em nenhum momento apareceu alguém para jurar que tudo aquilo era verdade.

Até por isso, Contatos de 4º Grau provocou protestos dos próprios moradores, que se viram desrespeitados pelo filme. E como se tudo isso não bastasse, a tal Dra. Tyler, no filme, se chama Abigail Elizabeth Tyler, iniciais de AET ou, em inglês, “uma E.T”., uma Extra-Terrestre. É forçar demais ou não?

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