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NOÉ

(Noah, 2014)

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02/04/2014 21h15
por Roberto Guerra

A história de Noé na Bíblia é breve. E como é praxe no livro sagrado, suscita mais dúvidas do que oferece respostas. Está lá que Deus decidiu eliminar a humanidade porque se arrependeu de sua obra. Escolheu Noé, o último homem justo, para construir uma arca e salvar a ele, sua família e um casal de cada espécie animal. Deu especificações técnicas sobre o tamanho da embarcação e avisou que iria inundar tudo.

A Bíblia é exígua em detalhes e qualquer cineasta que se propusesse a levar a história para as telas teria de preencher lacunas, muitas delas. O diretor Darren Aronofsky (Cisne Negro), apaixonado pelo texto desde a adolescência, juntou-se ao produtor Ari Handel para transformar o conto bíblico em filme. A dupla tomou diversas decisões e liberdades, algumas engenhosas, outras não. O resultado, infelizmente, deixa a desejar.

O poeta e ensaísta inglês Samuel Taylor Coleridge (1772- 1834) disse certa vez que para compreender as Escrituras era preciso exercer a "suspensão voluntária da descrença". Para quem lê, pode até funcionar. Mas o filme não poderia se furtar a responder perguntas básicas: Como Noé construiu a arca – sozinho ou com a ajuda de alguém além dos filhos? Como foram os dias de convívio dele com milhares de animais dentro da embarcação? Como os alimentou e impediu que não comessem uns aos outros?

Mesmo supostamente tendo vivido séculos – quando a arca ficou pronta Noé tinha 600 anos -, construir uma gigantesca nau sozinho e sem tecnologia não é algo muito plausível. Em Noé, o filme, Aronofsky e Handel resolvem o problema com uma solução também improvável: gigantes de pedra, chamados de guardiões, formam a equipe de marceneiros de Noé. O filme justifica sua existência como sendo anjos amaldiçoados por Deus presos em corpos feito de rocha na Terra.

É preciso muito boa vontade para engolir os transformers de pedra do filme. Principalmente quando, mais adiante, são usados para enxertar ação na história numa cena de batalha campal que remete o espectador a um universo de ficção científica. Perde-se neste momento (e em tantos outros) a impressão de estar assistindo a uma trama bíblica. Falta aquele tom solene e épico que Cecil B. DeMille soube imprimir em filmes como Os 10 Mandamentos e Sansão e Dalila.

O impacto que a fábula de Noé tem com o público está relacionada em parte com os animais; imaginá-los vindo aos pares para a arca, de todas as espécies. A cena está no filme, criada integralmente por computação gráfica. Depois a bicharada é deixada de lado. Como é difícil imaginar milhares de animais dentro uma embarcação à deriva sem alimentação e convivendo pacificamente, os realizadores optaram por uma saída astuta: todos ao entrar na arca hibernam. Uma ideia inteligente, mas que deixa no espectador a sensação de que os bichos mereceriam mais destaque.

Outra solução equivocada se desenrola já na arca. Como a Bíblia não traz nenhuma descrição de como foi o dia-a-dia de Noé à deriva, Aronofsky e Logan desenvolvem um conflito entre o patriarca e  sua família. Um embate que poderia ter sido melhor aproveitado se propusesse uma reflexão a cerca da decisão a que Noé se vê impelido a tomar. O filme, no entanto, não explora o conflito interior do personagem, mas seu embate com a mulher, filhos e nora. Ao final, uma cena tola e desprovida de emoção, envolvendo Noé e dois bebês, encerra o conflito.

Quando finalmente a arca repousa seu calado no Monte Ararate, sabemos que o filme está prestes a acabar. E a distância que separa você da tela continua lá, presente. Devíamos estar nos importando mais com Noé e os seus, mas simplesmente não conseguimos. Seria preciso uma "suspensão voluntária da descrença" também com os realizadores. Mas aí já é crença demais, é fé.

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