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O LADO BOM DA VIDA

(Silver Linings Playbook, 2012)

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27/01/2013 15h53
por Roberto Guerra
O lado bom do cinema é que este não vive de vanguarda. Novos olhares, abordagens e a experimentação narrativa serão sempre bem-vindos, claro. Mas o arroz com feijão é o que sustenta a indústria e permite, inclusive, que os autores modernos tenham recursos para realizar seus experimentos. O Lado Bom da Vida faz parte do time arroz com feijão, mas um trivial bem feito, temperado com os bons elementos que compõem uma obra de cinema. Não à toa recebeu oito indicações ao Oscar, o que mostra coerência a um prêmio cujo objetivo é festejar a indústria de cinema daquele país.

A trama simples trata de uma questão comum a todos nós: a busca romântica da felicidade e a constatação, a cada esquina, de que nem sempre a vida conspira a nosso favor, talvez somente nos filmes. O protagonista da trama chama-se Pat Solano (Bradley Cooper), um cara que perdeu tudo após um momento de fúria impensado. Depois de uma temporada preso em um manicômio judiciário, ganha liberdade condicional e volta a morar com os pais. Seu sonho é recuperar o que perdeu, a começar pela esposa.

Pat está imbuído de um otimismo quase pueril de que tudo vai dar certo. Mas o entorno mostrado pelo diretor e roteirista David O. Russell (de O Vencedor) nos afirma o contrário. Num dos bons momentos do filme, ele lança um exemplar de Adeus às Armas, de Ernest Hemingway, pela janela. Estava gostando do romance, mas seu desfecho o deixa enfurecido. Indignado, corre às 4h da manhã para o quarto dos pais, conta-lhes o enredo e avalia que um livro como esse não ajuda ninguém: “A vida é dura o suficiente. Por que alguém deveria ler algo que mostra o quão ruim as coisas podem ficar?”, diz.

É preciso ressaltar que Pat sofre de um distúrbio mental que lhe provoca mudanças de humor repentinas. Mas não demoramos muito a notar que sua loucura está mais para ingenuidade infantil, uma visão de mundo não muito diferente da que carregamos da infância à adolescência: a ideia de que tudo vai dar certo. Mas o universo que o cerca provoca em Pat um choque de realidade contínuo. Seu pai, interpretado por Robert De Niro, é obcecado por jogos de futebol americano e não pode mais frequentar estádios por ter se envolvido em brigas. Pat vê muito de si mesmo no pai, por isso tenta evitar essa versão resignada de si mesmo.

Uma ordem judicial o impede de se aproximar da ex-mulher, mas ele insiste a todo custo que amigos em comum estabeleçam uma comunicação entre os dois. É por meio desses amigos que, inadvertidamente, conhece Tiffany (Jennifer Lawrence), garota problemática e misteriosa que perdeu o controle da própria vida depois da morte precoce do marido. Do encontro se estabelece uma relação insólita onde esses dois fustigados pela crueza da vida vão se ajudar, mesmo que para isso precisem confrontar seus fantasmas.

É bem verdade que neste ponto conseguimos antecipar o que vem adiante. A previsibilidade, no entanto, não deixa esmorecer a energia vital de O Lado Bom da Vida, que está concentrada mais em seus personagens e menos na trama. Bradley Cooper e Jennifer Lawrence mostram entrosamento e conseguem fazer saltar na tela a tensão envolvida na relação conturbada. De Niro, que há muito não brilhava num filme, faz um trabalho elogiável assim como Jacki Weaver, que interpreta a mãe do protagonista. David O. Russell conduz o longa com a delicadeza necessária e faz ótimo trabalho de câmera, ora na mão (sem movimentos exagerados) ora fixa, nos inserindo no universo de seus personagens cativantes como observadores de seus dramas, mas também nos fazendo compartilhar de suas angústias.

Sim, nem sempre a vida conspira a nosso favor, talvez somente nos filmes. E O Lado Bom da Vida é um filme, afinal. E dos bons.

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