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PONYO - UMA AMIZADE QUE VEIO DO MAR

(Gake no ue no Ponyo/ Ponyo on the Cliff by the Sea, 2008)

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30/07/2010 10h57
por Heitor Augusto
Como faz bem para olhos cada vez mais acostumados à computação gráfica assistir a um filme feito com lápis colorido e papel! Nada contra, à priori, aos trabalhos da DreamWorks ou da Pixar, mas o desenho à mão tem a gigantesca força de nos arremessar de volta à infância, quando nós mesmos criávamos mundos coloridos com traços desajeitados.

É mais encantador ainda quando se trata de uma animação de Hayao Miyazaki, a principal autoridade do gênero no Japão. Além de seus desenhos, o que chama a atenção é sua habilidade em contar histórias com poucos diálogos, utilizando apenas sequências de imagens e música. Com ele, parece que voltamos ao primeiro cinema, no período mudo, no qual uma linguagem estava sendo criada. Miyazaki dirige ora como um cineasta moderno, ora como um pré-clássico, que se esmera em criar a imagem mais poderosa que prescinda da fala.

Ponyo – Uma Amizade que Veio do Mar, seu novo longa-metragem, começa com uma colorida e terna panorâmica do fundo do mar, com um peixe tentando escapar de um navio. Em pouco mais de três minutos, já fomos sugados pelo filme e viajamos junto com o animal em busca de um novo mundo: o fora d’água.

Dentro de Miyazaki convivem, lado a lado, uma criança de 5 anos e um senhor de 69 anos. Quando o primeiro toma conta do lápis, desperta em nós uma identificação natural, pouco elaborada, de coração e instinto, não-racional, presa nas cores, na impossível amizade entre um menino, Sosuke, e um peixe-dourado, Ponyo, que se transforma em menina. A imaginação infantil que torna tudo possível está no comando.

Por outro lado, quando o adulto dentro de Miyazaki assume o posto, nossa identificação é racional. Fica claro não apenas uma crítica simplista à intervenção do homem na natureza, mas o desejo radical de que grandes ondas destruíssem a sociedade apegada a parafernálias tecnológicas. Não à toa, Sosuke e sua mãe, Lisa, vivem em uma casa no alto da montanha, um tanto que isolados.

Ponyo – Uma Amizade que Veio do Mar fala tanto à nossa porção adulta quanto à infantil. Se você tem 5 anos, vai achar que o filme foi feito por uma criança da mesma idade. Se já é adulto, sentirá que alguém com as mesmas questões está por trás dos desenhos. Assim como na vida, estamos ora cá, ora lá.

O foco da história é a amizade entre o garoto Sosuke e a peixe Ponyo. Porém, a perspectiva de narração é a do Fujimoto, pai da menina-peixe. Ele era humano, até decidir morar no fundo do mar e organizar uma revanche contra a humanidade destruidora. Fujimoto é contra à saída da menina-peixe do oceano.

A metáfora de como os pais têm de lidar com o crescimento dos filhos, deixá-los ir. Ponho – Uma Amizade que Veio do Mar começa o que Toy Story 3 termina: Miyazaki fala da difícil aceitação dos pais em relação às escolhas de liberdade dos filhos. Já a animação com Woody, Buzz Lightyear e companhia trata do momento em que os filhos já partiram e os pais, assim como os brinquedos da infância, vão para segundo plano (ou para o sótão). Só que, enquanto a turma de John Lasseter fala ao adulto que se lembra da infância com saudade, Miyazaki faz com que este mesmo adulto se sinta criança no tempo presente.

O único senão é a opção moral do filme em detrimento da profundidade dos personagens, que o coloca atrás de A Viagem de Chihiro. Mesmo assim, Ponyo – Uma Amizade que Veio do Mar é delirante.

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