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SERRA PELADA

(Serra Pelada, 2013)

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14/10/2013 19h00
por Roberto Guerra

Serra Pelada é o típico filme que diretor brasileiro bem intencionado ama estragar. Como sua trama ficcional se mistura a fatos de um período recente de nossa história, temos de cara a armadilha que vez por outra faz baixas por aqui: tentar compartimentar em duas horas de projeção os diversos aspectos, dramas e pontos de vista de momentos ricos e naturalmente complexos. O resultado, invariavelmente, são produções de estrutura dramática frágil.

Bom para o espectador que o cineasta Heitor Dalhia (O Cheiro do Ralo) estava ciente do perigo e tinha, entre os alvos de suas boas intenções, o público – por incrível que possa parecer às vezes se esquece dele. Propôs-se a contar a história de dois amigos (vividos por Juliano Cazarré e Júlio Andrade) que partem de São Paulo rumo ao sul do Pará em busca do sonho dourado; e de como a vida no garimpo muda drasticamente suas vidas e põe em xeque a antes sólida amizade.

Dalhia tinha este objetivo, não fugiu dele, não tergiversou e chegou lá. Serra Pelada faz um misto bem azeitado de drama, ação e romance que mantém ritmo constante e, ao contrário de seus protagonistas garimpeiros, não deixa uma trilha de buracos pelo caminho. Não há grandes segredos para o êxito: roteiro muito bem trabalhado por ele e Vera Egito ao longo de quatro anos, bons atores dando verdade a bons personagens e direção firme.

Serra Pelada, como se sabe, há muito se encontra desativada. A montanha deu lugar a um gigantesco buraco e este hoje está tomado pela água. Como era inviável filmar na locação real, a equipe de produção recriou o garimpo no terreno de uma mineradora localizada em Mogi das Cruzes, região metropolitana de São Paulo. Trabalho esmerado e detalhista que reviveu o formigueiro humano com a ajuda de 1,6 mil figurantes. O longa também teve partes filmadas em Paulínia e Belém.

Com personagens bem escritos nas mãos, Cazarré e Andrade fizeram o que comprovadamente sabem fazer bem: atuar. O espectador não demora a compartilhar de seus dramas e acreditar na verdade da relação entre os dois. Enxerga-se também em Serra Pelada cuidado especial com os coadjuvantes. Os principais são Lindo Rico, vilão cheio de maneirismos interpretado por Wagner Moura; Coronel Carvalho, espécie de latifundiário do garimpo vivido por Matheus Nachtergaele; e a bela e intensa Tereza, ótimo trabalho da estreante em cinema Sophie Charlote.

Enxuto em quase todos os aspectos, o filme peca quando faz uso da narração em off. Recurso válido, desde que não seja redundante com o que se vê. E em Serra Pelada há momentos nos quais o off é totalmente supérfluo, o que é ainda mais descabido em trama tão bem resolvida.

Num dado momento, por exemplo, decide-se explicar pela locução que Marias era nome dado ao grupo formado por garimpeiros homossexuais. Algo plenamente inteligível sem a necessidade da voz professoral e didática a nos contar o que estamos vendo.

Os excessos do voz off incomodam um pouco, mas não tiram o prazer de se assistir à Serra Pelada. O bom filme de Heitor Dalhia mostra que aos poucos – e até porque estão realizando mais – os cineastas brasileiros estão perdendo o mau hábito de querer abraçar o mundo num filme só.

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