Nesta sexta-feira o Festival Internacional de Cinema de Paraty abriu suas portas ao público e exibiu os primeiros longas de sua mostra competitiva. O destaque da noite foi
Os Últimos Cristeiros, do mexicano Matías Meyer, cuja estreia mundial se deu no Festival de Toronto deste ano. O longa é retrato intimista de uma faceta da história do México pouco conhecida até mesmo pelos mexicanos, segundo afirmou o diretor em entrevista ao
Cineclick.
O episódio se deu entre 1926 e 1928, quando camponeses mexicanos pegaram em armas para defender sua liberdade religiosa diante da tentativa do governo do presidente Plutarco Elias Calles de limitar as atividades da Igreja Católica. A história do filme é centrada nos últimos cinco soldados cristeiros, como eram conhecidos, que decidiram defender até o fim o direito de exercer sua fé. “O que me atraiu para esse tema é que ele nunca foi retratado a contento pelo cinema mexicano. De certa forma eu senti a necessidade de contar essa história”, diz Meyer, que se inspirou no livro homônimo de Antonio Estrada para compor o roteiro ao lado de Israel Cardenas.
Com tomadas longas, poucos diálogos e planos abertos,
Os Últimos Cristeiros revela um trabalho caprichado de direção de elenco, tendo em vista que todos atores do filme são amadores - campesinos das regiões onde ocorreram os combates entre as tropas federais e os revoltosos. “Desde o início do projeto eu sabia que não queria trabalhar com profissionais. Atores profissionais não iriam passar a auteticidade desses combatentes. Por não trabalhar com profissionais, tive de reduzir os diálogos, mas isso não foi um problema porque os poucos diálogos abrem espaço para a introspecção, que era o propósito do filme”, revela Meyer.
Os Últimos Cristeiros
: excelente trabalho de direção de elencoO resultado impressiona: em nenhum momento da projeção tem-se a impressão de se estar diante de não-profissionais, tamanha a carga emotiva que os personagens conseguem passar para o espectador. “Foi um trabalho longo de ganhar a confiança deles. O personagem principal, por exemplo, não sabia ler. Então seus textos eram decorados por repetição”, conta o jovem cineasta.
Os Últimos Cristeiros tem narrativa diversa. Apesar de contar a história de soldados encurralados por tropas do governo, não mostra cenas de combate e, parcimonioso nos diálogos, convida o espectador a entrar na via-Crúcis dessas homens por meio de suas reflexões e questionamentos sobre a própria fé. “Ao longo do filme fiz muitas cenas abertas para que o espectador as interpretes como quisesse. Todos sabemos que eles vão morrer, mas não quis mostrar os combates, cenas violentas, porque acredito que o México não precisa disso neste momento”, diz Meyer fazendo alusão à onda de violência em curso em seu país por causa do narcotráfico.
Correndo o mundo no circuito dos festivais de cinema,
Os Últimos Cristeiros ainda não teve contato com o público mexicano. Meyer, no entanto, diz ter ciência de que seu filme não deve alcançar a massa. “O filme só teve uma exibição no México, mas é difícil saber o que as pessoas acham, porque quem não gosta não vem até você para comentar. Depois da exibição no México algumas pessoas vieram me procurar querendo saber detalhes históricos dos acontecimentos, mas isso não cabe ao filme. Não quis fazer um documentário, um filme histórico, mas contar a história de pessoas dispostas a tudo para defender seus ideais e sua fé”, conclui.
Matías Meyer: ciente que seu filme não deve alcançar o grande público