Foi exibido na noite deste domingo (13/11) o último filme da mostra competitiva do Festival Internacional de Cinema de Paraty. Prêmio de Melhor Filme em Rotterdam,
Os Diários de Musan, de Park Jung-Bum, conta a história de um norte-coreano que foge para a Coreia do Sul e vive dura rotina para se adaptar e sobreviver na moderna e fria Seul. O
Cineclick conversou com o diretor logo após a exibição, que foi aplaudida pelo público depois de alguns minutos de silêncio provenientes do forte impacto que as desventuras do protagonista causa à audiência.
E não é para menos. O cineasta não é condescendente. Mostra de forma crua a realidade triste de seu personagem, um homem que sobrevive de subempregos, é maltratado por seus pares e subjugado por todos. Não há esperança à vista para Jeon Seung-Chul. Ele sente isso. Nós, que acompanhamos seu infortúnio como
voyeurs - graças à câmera na mão que segue o protagonista-, também. “Sei que o filme é bem sombrio, mas o fiz desta maneira porque queria que as pessoas abrissem os olhos para o fato de que existe gente nessa situação”, diz Jung-Bum, que também interpreta o protagonista.
O ator principal do filme seria um amigo do cineasta, um norte-coreano com quem dividiu apartamento. O companheiro que inspirou a história morreu pouco antes das filmagens vítima de um câncer de garganta. “Depois de sua morte, assumi o compromisso de atuar. Acho que era meu dever, minha função como amigo. Não via outra pessoas fazendo isso”, revela o diretor.
O Musan do título, que leva o espectador a pensar que se trata do personagem, na verdade é uma região da Coreia do Norte da qual mais pessoas fogem em direção ao país vizinho. “Esse meu amigo veio de Musan. 'Mu' significa floresta e 'San' Montanha. O irônico é que não existem mais florestas por lá, por isso as pessoas dizem que não há outra alternativa a não ser deixar esse lugar”.
Foto: Danilo Castro
Park Jung-Bum: atrás de mostrar a dura realidade dos norte-coreanos em SeulO protagonista foge para a Coreia do Sul por passar fome, realidade de muitos norte-coreanos sob o governo do insano ditador Kim Jong Il. Na capital Seul vai trabalhar colando cartazes nas ruas da capital. Mora de favor no pequeno apartamento de outro norte-coreano envolvido com atividades ilícitas e alimenta paixão por uma jovem da igreja que frequenta. Tímido, mal vestido e com a autoestima baixa, não é capaz de declarar seu amor pela jovem. Diante das muitas adversidades, encontra conforto em um novo companheiro, um cão que decide adotar.
Park Jung-Bum se disse surpreendido com a boa aceitação de seu filme em diversas partes do mundo. Antes de ver o longa ser exibido para plateias de outros países, o diretor tinha receio que o tema não atraísse a atenção de estrangeiros. “Ver tantas pessoas do outro lado do mundo dando tanta importância para algo que eu fiz não tem preço. É uma preciosidade”.
Ao fim da entrevista, o cineasta se disse apreciador do cinema brasileiro e revelou que a atenção dos sul-coreanos por nossos filmes aumentou muito nos últimos anos. “Eu conhecia o cinema das décadas de 60 e 70 feito no Brasil, que eram filmes com temática mais política. Recentemente, foi a exibição de
Cidade de Deus na Coreia que despertou o interesse dos coreanos pelo cinema feito aqui”, conta Jung-Bum.
Nesta segunda-feira o público do Festival de Cinema de Paraty terá a oportunidade de ver
Os Diários de Musan e outros filmes da mostra competitiva que serão reapresentados. Desde já a produção é forte candidata ao prêmio de Melhor Filme.
Diários de Musan
: forte candidato ao prêmio de Melhor Filme em Paraty