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As Hiper Mulheres:
compreensão do ritual surge aos poucosAs Hiper Mulheres, documentário que mostra o ritual cântico de uma tribo indígena do Xingu, exibido na noite de domingo (22/1) na Mostra de Tiradentes, é um dos filmes a integrar a legião de brasileiros que vai invadir o Festival de Roterdã.
A partir da próxima quarta-feira (24), o festival holandês estará abarrotado de longas e curtas-metragens produzidos no Brasil – alguns deles inclusive passaram por Tiradentes. Ao todo, serão sete longas e cinco curtas, além de uma extensa retrospectiva da produção da Boca do Lixo e da presença de Helena Ignez, musa de Rogério Sganzerla, no júri do Tiger Awards.
Roterdã também vai marcar um fato raríssimo: dois longas brasileiros –
Sudoeste e
O Som ao Redor – estarão na mostra competitiva principal, acontecimento quase nunca visto num festival europeu de grande porte. O máximo de penetração que o cinema brasileiro tem conseguido em eventos do Velho Continente tem sido em Cannes – média de quatro filmes por ano, mas espalhados em mostras paralelas.
Alguns dos filmes que serão exibidos em Roterdã são
Febre do Rato (Melhor Filme no Festival de Paulínia),
Girimunho (que competiu na mostra paralela Horizontes do Festival de Veneza),
Duelo Antes da Noite (exibido em Cannes em 2011) e
Praça Walt Disney (Melhor Curta-metragem eleito pela Abraccine - Associação Brasileira de Críticos de Cinema).
Índios vão cantar na Holanda
As Hiper Mulheres é resultado da união de forças distintas. A direção é dividida por Takumã Kuikuro, curta-metragista do Xingu formato em oficinas, Leonardo Sette, diretor de
Ocidente e
Confessionário, e Carlos Fautos, antropólogo autor do livro
Os Índios Antes do Brasil.
O centro do filme é um ritual de canto protagonizado pelas mulheres, que serão o centro das atenções na grande festa realizada quando os homens voltam da pescaria com o alimento em mãos. É preciso cantar para que os esposos não se transformem em monstros, como diz a lenda.
As Hiper Mulheres é um filme pouco tradicional sobre os preparativos. Não há entrevistas ou explicação didática sobre qual tribo se trata, o local, a natureza do ritual. É preciso calma para que, além das imagens belíssimas, surja aos poucos a compreensão da importância da cantoria.
Duas vezes aplaudido na sessão aqui na Mostra de Tiradentes, o filme chama atenção especialmente por quatro detalhes. A começar pela beleza das cenas e a noção dos índios (que operaram as câmeras) sobre a força do plano e do enquadramento no cinema (percepção que muitas vezes falta a realizadores não-índios. A montagem que dá ritmo ao ritual e constrói um sentido para espectadores que pouco sabem dele.
Outros dois detalhes são a desmistificação dos cantos e das mulheres: elas falam de homens, de sexo, de orgasmo, de pênis – não apenas de natureza. Há também a musicalidade arrebatadora que surge da reunião de tantas mulheres juntas a cantar. Sem contar também a tradição oral e a tensão (criada pelas ferramentas do cinema) com a expectativa em torno da única cantora da tribo que sabe todas as canções, mas está doente.
Sem dúvidas,
As Hiper Mulheres, que no festival mineiro integra a sessão Olhares, é um dos fortes destaques da legião brasileira que vai tomar o holandês Festival de Roterdã de assalto.
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Heitor Augusto viajou a convite da organização do festival.