Pelo segundo ano consecutivo, a Mostra de Cinema de Tiradentes, o mais inquieto dos eventos do calendário de festivais brasileiros, vai homenagear um ator. Se 2011 foi o ano de Irandhir Santos, que caiu na boca do povo após o sucesso de
Tropa de Elite 2, neste edição os holofotes se voltam a Selton Mello, um ator que também é autor.
A 15ª Mostra de Tiradentes começa nesta sexta-feira (20/1) com a exibição do inédito
Billi Pig, de José Eduardo Belmonte. Selton é um dos exemplos de ator que transita por muitas frequências dentro do cinema brasileiro. Pode ser lembrado por um projeto muito autoral como
Lavoura Arcaica ou pelo carisma de
O Auto da Compadecida, um playboy maconheiro em
Árido Movie ou um romântico em
A Mulher Invisível. Selton conseguiu tanto ser dirigido por um esteta como Julio Bressane quanto por um diretor com influências do videoclipe como Mauro Lima.
A escolha da Mostra de Tiradentes em homenageá-lo, fazendo uma retrospectiva com cinco longas e promovendo debates em torno do lugar do ator no cinema nacional, acompanha uma das características da produção brasileira pós-Retomada: o autor como força motriz para atrair público. No Brasil, Selton ocupa um status semelhante ao de Ricardo Darín na Argentina. A diferença é que o mineiro decidiu ampliar a questão da autoria ao se tornar diretor, enquanto o
bonaerense não demonstra interesse pela expansão.
No ano passado, Selton ainda logrou dirigir seu segundo longa-metragem,
O Palhaço, que acumula 1,4 milhão de espectadores – e poderia ter atingido um número maior se não fosse arrastado por
A Saga Crepúsculo: Amanhecer – Parte 1. A homenagem a Selton, um dos atores símbolos de sua geração ao lado de João Miguel, Irandhir Santos, Wagner Moura e Lázaro Ramos, é o diálogo com o eixo da Mostra de Tiradentes pretende se debruçar neste ano: o ator em expansão.
Selton Mello ao lado de Grazi Massafera nos bastidores de
Billi PigCompetição de novos diretoresQuem acompanha a Mostra de Tiradentes especialmente nos últimos cinco anos sabe que na pequenina e histórica cidade mineira acontece uma atípica fusão entre público e filmes. Produções de fôlego, que no circuito seriam taxadas de “difíceis” ou “herméticas”, quando exibidas no evento parecem ganhar a predisposição do espectador em caminhar até o filme.
Sessões na praça principal lotadas ou no Cine Tenda, o espaço de exibição que é armado especialmente para o evento: o público resiste até às cadeiras não tão confortáveis do local.
Assim como nas edições recentes, Tiradentes continua privilegiando realizadores ainda nos primeiros longas. A seleção da Mostra Aurora mantém esse perfil com as três ficções e os quatro documentários selecionados.
Nas projeções paralelas entram os realizadores mais experientes e consolidados no cenário de realização. Casos de Francisco César Filho (do inédito
Augustas), Tata Amaral (
Hoje) e Edgar Navarro (
O Homem que Não Dormia). Também distribuídos nas exibições paralelas estão filmes premiados que passaram por outros festivais nacionais e internacionais de diretores em ascensão, casos de Estradeiros,
Vou Rifar Meu Coração,
As Hiper Mulheres e Na Carne na Alma, o filme póstumo de Alberto Salvá.
Outro destaque da Mostra de Tiradentes é a seleção de curtas-metragens que costuma antecipar os melhores filme do ano no formato – caso de
Praça Walt Disney, exibido em Minas em 2011 e eleito Melhor Curta-metragem pela Abraccine (Associação Brasileira de Críticos de Cinema). Em 2012, serão 84 produções oriundas de 12 estados brasileiros.
Durante nove dias serão 116 filmes, 19 encontros com a crítica e sete debate temáticos. A organização estima público de 30 mil pessoas que de alguma maneira aproveitam a programação da Mostra de Tiradentes. Quem já esteve por lá sabe: este número não é um exagero.
*Heitor Augusto viajou a convite da organização do festival.