HU:
chave para dialogar com o espectador e incomodá-loÉ raro um documentário que coloque com tamanha potência o seu discurso apenas em formas cinematográficas. E não há como não recebê-lo com a felicidade de quem presencia a força do cinema reconstruindo a realidade.
HU, filme exibido na noite de quinta-feira (26/1) aqui na 15ª Mostra de Tiradentes, chega à raiz do tema – sucateamento das instituições públicas – tecendo o discurso pelo enquadramento. As afirmações surgem a partir do que vemos, de como vemos, do que deixamos de ver e dos ruídos que ouvimos. É com o cinema que se faz discurso. Cinema é discurso.
No documentário que integra a seleção da Mostra Aurora, dedicada a primeiros e segundos longas, aproveitam-se as possibilidades de espaço que o gigantesco prédio do Hospital Universitário do Rio de Janeiro oferecem para se comentar, por meio do vazio da imagem e a imensidão do que está no quadro, o desalento.
Como nos lembra
HU, o Hospital Universitário Clementino Fraga Filho passou a ser construído em 1950, no segundo governo do presidente Getúlio Vargas, mas foi interrompido cinco anos depois. A obra seguiu num ritmo irregular condicionado à presença ou falta de recursos. Imenso, o projeto inicial previa uma área de 220 mil m2 e 1.800 leitos, distribuídos num imenso complexo em forma de pi. A inauguração oficial ocorreu apenas em 1978, no mandato ditatorial de Ernesto Geisel.
Detalhe: apenas metade da construção estava finalizada, e assim permaneceu, aos pedaços, enquanto a outra parte operava. Em dezembro de 2010, o “pé seco”, a massa morte do elefante branco, foi implodida.
O Hospital começa num momento de esperança com o próprio Brasil, de industrialização e confiança num projeto de país, e termina de ser construído num governo ditatorial, falido e repressor. Quando inicialmente planejado, uma construção como essa representava a confiança no Brasil como um país do futuro, moderno. No término, um país destroçado e com sequelas.
A opulência da imagem Os diretores Joana Traub Cseko, artista ligada à pesquisa de linguagens visuais, e Pedro Urano, um dos fotógrafos em ascensão no cinema brasileiro e diretor do documentário
Estrada Real da Cachaça, encontram a chave para dialogar com o espectador e incomodá-lo quanto ao abandono do Hospital Universitário. É o estranhamento do olhar que guia os enquadramentos. É nessa chave que se criam os ruídos, o incômodo, o horror. É ao colocar lado a lado a opulência do espaço com a depredação do espaço público que
HU arrebata e se torna um filme especial.
É nessa chave que o documentário cutuca o espectador. Até suas imperfeições, as escolhas questionáveis ou arriscadas, tornam-se menores frente ao acerto do filme, sua importância e a precisão de seu impacto. É com as ferramentas do cinema que ele se torna discurso, afirmação e contestação.
E
HU tem um desfecho lindo e potente numa sequência praticamente apocalíptica. Mais um a se juntar na fileira de filmes interessantes da programação Aurora aqui da Mostra de Tiradentes, ao lado de
As Horas Vulgares e
Corpo Presente.
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Heitor Augusto viajou a convite da organização do festival.