30/01/2012 15h57

TIRADENTES 2012: Política e debate entre crítica e cineastas marcam mostra

Heitor Augusto, enviado especial a Tiradentes



Muita coisa aconteceu na pequenina Tiradentes nos últimos nove dias. Da homenagem a Selton Mello à premiação de A Cidade é uma Só?, torna-se até difícil abarcar em apenas um texto o que aconteceu na 15ª Mostra de Tiradentes, tamanha a intensidade dos debates e a possibilidade de diálogos oferecida pelos filmes exibidos.

Passando pelos longas-metragens que competiram na seleção Aurora, dedicado a novos realizadores comprometidos com um cinema um pouco diferente do que você está acostumado a ver no circuito comercial, percebe-se uma preocupação clara com a cidade e o desenvolvimento urbano. Melhor: por um viés político-cinematográfico.

São os casos de A Cidade é uma Só?, grande premiado da Mostra de Tiradentes, HU, agraciado pelo Júri Jovem, Corpo Presente, As Horas Vulgares e Balança Mas Não Cai, cinco dos sete filmes projetados na Aurora.

Sem a intenção de ignorar as particularidades, mas buscar uma ponta de conversa entre eles, a cidade é peça-chave, seja pela relação temporal (como processos do passado interferiram no presente) ou espacial (um certo mal estar com o estado das coisas). As escolhas que cada um dos filmes faz, porém, é diversa.

A Cidade é uma Só? é um show de humor, mas também de força política e criatividade de dramaturgia. Personagens ficcionais criam um híbrido documental que questionam Brasília e o processo de expulsão dos pobres nos anos 70 que criou Ceilândia. Já em Corpo Presente, apesar do humor e das referências ao cinema da Boca do Lixo, o mal estar com São Paulo é ainda mais incômodo. Três personagens alienados da realidade: há algo mais atual do que falar em alienação quando a cidade é dominada por uma nuvem reacionária?

Mal estar com o estado das coisas é o que também não falta ao capixaba As Horas Vulgares. O registro, porém, é diferente: sua fotografia em preto e branco, o jazz e jovens personagens em busca de esperança nos colocam numa atmosfera de alumbramento. Mas por trás de toda a beleza da fotografia, não há como fechar os olhos para o incômodo.

A Mostra de Tiradentes teve também a felicidade de reunir dois documentários dedicados a ... prédios! O carioca HU é um retrato político-cadavérico do descaso com a coisa pública que toma como ponto de partida o Hospital Universitário Clementino Fraga Filho, da UFRJ. Filme que se posiciona politicamente nos enquadramentos, causando no espectador uma profunda sensação de desconforto.

O outro “filme de prédio” é o mineiro Balança Mas Não Cai. Tomando como objeto o Tupis, edifício histórico de Belo Horizonte que atravessou diversas fases e ocupações, o filme pretende uma leitura poética das vidas que por lá passaram. Neste filme, a política vai para segundo plano.

Nessa tentativa de estabelecer pontes entre os longas-metragens que competiram na Mostra de Tiradentes, dois filmes escapolem. Strovengah – Amor Torto nos lembra de uma precariedade típica das produções de Luc Moullet e, cheio de problemas, apresenta um autor engolido por seus próprios personagens fantoches. Já Entorno da Beleza, documentário sobre concursos de miss em Brasília, tem boas cenas, mas seu conjunto é fraco cinematograficamente.

Não há nenhuma obra-prima na Aurora – e nem é o caso de cobrar isso –, mas os filmes exibidos permitem várias possibilidades de diálogo com o processo de formação brasileiro. E não faltam também longas que buscam algo mais do próprio cinema: alguns de resultados mais coesos (A Cidade é uma Só? e HU), outros irregulares, mas com vida pulsante (As Horas Vulgares e Corpo Presente) e também os com menos recheio (Balança Mas Não Cai, Stronvegah – Amor Torto e Entorno da Beleza).

Cinema invisível

Nos últimos cinco anos o festival festival realizado na histórica cidade mineira de apenas sete mil habitantes se notabilizou por dar espaço a filmes brasileiros que infelizmente ainda andam à margem do circuito de exibição. Pelo evento passaram filmes de baixíssimo orçamento, com pretensões autorais, geralmente resultado de ação entre amigos e coletivos, representando um anseio de fazer cinema driblando canais oficiais.

Após cinco anos desse fluxo que tem como alguns exemplos os premiados O Céu Sobre os Ombros, Os Residentes e Pacific, já está na hora de começar a fazer avaliações. E já passou da hora de encontrar maneiras para que esses filmes cheguem a um público maior: a experiência da produção à exibição precisa ser completa e urge dar a chance ao espectador de se posicionar sobre esses filmes.

O que não pode continuar é a invisibilidade desse cinema: ele existe, está aí e é preciso que chegue a um número maior de pessoas. É preciso sacudir a percepção de que a única alternativa que o cinema brasileiro encontrou à comédia chula como Cilada.com é um filme como o bem-vindo O Palhaço. Há muito mais coisa acontecendo – por enquanto, restrita aos festivais, com destaque para Tiradentes – e urge que o público conheça esses filmes para colocá-los na roda.

A visibilidade restrita dessa produção – que convencionou a se chamar “novíssimo cinema brasileiro” – e a atuação da crítica frente a esses filmes foi um dos temas fortemente discutidos na Mostra de Tiradentes – especialmente nos seminários dedicados a avaliação da crítica de cinema pós-anos 2000 e à renovação do cinema brasileiro.

Com a popularização do digital e redução dos custos de câmeras e equipamentos, a realização cinematográfica se pulverizou. A geração que no final dos anos 1990 se dedicava à crítica de cinema passou também à realização de filmes. Em meados da década passada, estudantes de cinema que saíram dos bancos das universidades conseguiram queimar etapas e passaram diretamente à realização.

O resultado é que hoje, 2012, muito mais filmes são feitos. Os fóruns de discussão também se expandiram – Tiradentes é um dos exemplos. Alguns esforços para ampliar o escopo de exibição foram feitos – como a Sessão Vitrine, projeto que exibiu esses filmes em diversas capitais. Um começo, mas ainda é pouco.

Nesta 15ª edição da mostra ficou explícito também uma certa reticência entre parte dos realizadores e da crítica. Quem faz esse cinema acusa a crítica de não ter descido à Terra para acompanhá-lo e fazer corpo a corpo com essa produção; a crítica argumenta não ter encontrado nenhum grande filme dessa geração que, grosso modo, é agrupada sob o selo de “novíssimo”, e que a imperfeição dos filmes não pode ser escondida sob a justificativa de fortalecê-los.

Todavia, à exceção de festivais como Tiradentes, que tenta e consegue seduzir espectadores turistas de passagem pela pequenina e charmosa cidade, o público ainda não chegou perto dessa discussão. Sequer tomou conhecimento dos próprios filmes.

E isso precisa mudar. Urgentemente. É um crime apenas 4 mil pessoas assistirem a O Céu Sobre os Ombros.

Veteranos cheios de vida

Paralelamente aos debates e à competição de longa-metragem, Tiradentes trouxe em exibições paralelas alguns veteranos cheios de jovialidade, reposicionando também produções que passaram quase silenciosamente por outros festivais.

Um dos exemplos é O Homem que Não Dormia, de Edgar Navarro, veterano realizador do seminal Super Outro que chegou apenas ao segundo longa-metragem. Previamente projetado em Brasília, na mostra mineira ele foi alçado ao posto de filme-evento.

Caso também da obra póstuma de Alberto Salvá, Na Carne e na Alma, último filme a ser projetado em Tiradentes. Imperfeito, mas com uma cara-de-pau e sinceridade que às vezes faz falta ao cinema brasileiro. Exemplo também é Djalioh, de Ricardo Miranda, um dos mais importantes montadores do cinema brasileiro, que dá um nó na nossa cabeça ao propor outro tipo de encenação.

Interessante também foi a exibição de Augustas, de outro veterano realizador, Francisco Cesar Filho, mas que só agora chegou ao formato do longa-metragem. Mesmo com todos os problemas do longa, trata-se de um filme necessário por seu jeitão despudorado.

Fazer um festival de cinema com o perfil de Tiradentes, marcado pela força da curadoria que busca criar diálogos entre os filmes, continua sendo um desafio. A cada ano, a cidade se torna menor para o porte do festival. Após esta 15ª edição, o desafio é que Tiradentes não transborde apenas de gente, mas que as discussões concentradas por lá se espalhem por outros cantos.
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