Ficha do Filme

OS INQUILINOS

(Os Inquilinos, 2009)

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Estreia

26/02/2010

Valter (Marat Descartes) e Iara (Ana Carbatti) moram na periferia de São Paulo e têm dois filhos. Eles seguem a vida normalmente até que chegam novos vizinhos. Valter trabalha durante o dia e estuda à noite. Sua mulher diz que os novos inquilinos não trabalham, que devem ser bandidos. Ninguém sabe exatamente de onde vieram os três rapazes. Valter não tem uma arma, tem filhos pequenos, fica fora o dia inteiro, não vê o que se passa na rua, ouve o que a mulher diz, o que a rua diz, ouve o barulho da música e das risadas dos inquilinos de madrugada. E não consegue dormir. Quem vai morrer? Valter não sabe.

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FICHA TÉCNICA

Gênero: Drama

Direção: Sergio Bianchi

Roteiro: Beatriz Bracher, Sergio Bianchi

Elenco: Ailton Graça, Ana Carbatti, Ana Lúcia Torre, Andressa Néri, Caio Blat, Cássia Kiss, Fernando Alves Pinto, Lennon Campos, Leona Cavalli, Marat Descartes, Sérgio Guizé, Sidney Santiago, Umberto Magnani, Zezeh Barbosa

Fotografia: Marcelo Corpanni

Duração: 103 min.

Ano: 2009

País: Brasil

Cor: Colorido

Estreia: 26/02/2010 (Brasil)

Distribuidora: Pandora

Estúdio: Agravo Produções Cinematográficas

Classificação: 14 anos

Informação complementar: Baseados em conto de Vagner Geovani Ferrer

CRÍTICA

por Celso Sabadin

O primeiro plano de Os Inquilinos é dos mais significativos: a tela é totalmente preenchida por um verdadeiro mar de moradias de classe baixa. Não exatamente uma favela de barracões, mas casas de alvenaria sem acabamento, com seus tijolos (vísceras) à mostra. Sem espaço para céu, ar ou respiro. Bem no meio do quadro se vê uma árvore verde que teima em viver, que resiste em meio ao concreto.

É exatamente sobre isso que versará o filme: a tentativa de manter uma sobrevivência digna em meio a tanta aridez humana. Para contar esta história, o sempre polêmico Sérgio Bianchi realiza aqui o seu filme mais maduro e menos panfletário de uma carreira que inclui Quanto Vale ou é Por Quilo? e Cronicamente Inviável, entre outros. Não é pouco.

O roteiro se centraliza na periferia paulistana, numa família de renda baixa, porém de firme estrutura moral. “Pobre, mas limpinha”, como reza o preconceito. Valter (Marat Descartes) é um trabalhador braçal. Sua esposa, Iara (Ana Carbatti), cuida da casa e dos filhos do casal, ambos estudiosos e devidamente matriculados em escolas. O problema surge quando bando de três arruaceiros, que dormem durante o dia e reservam a noite para festas barulhentas, mudam-se para a casa ao lado. Está estabelecido o conflito. De um lado, marginais ligados ao crime, sem medo de nada ou de ninguém. Do outro, cidadãos respeitáveis. E a inexistência de lei e/ou ordem social que possa se interpor entre estes dois pólos opostos.

É interessante perceber que – salvo num rapidíssimo diálogo – nem se cogita a possibilidade de acionar a Polícia. É um tipo de código mudo de quem sabe que isso de nada adiantaria ou, pior, poderia piorar a situação. Chamar a Polícia não faz parte da realidade do lugar.

A cada noite mal dormida, a tensão aumenta. Valter chega a ter sonhos e delírios imaginando o pior. Iara teme pela formação dos filhos, que ouvem os palavrões e presenciam as prostitutas dos novos vizinhos. E este é um problema apenas pontual. Enquanto isso, não muito longe dali, uma garota é encontrada morta, os ataques do “Partido” continuam incendiando ônibus, e a escola noturna que Valter frequenta luta contra a crescente criminalidade ao seu redor. Não bastasse a violência presencial, a família ainda insiste em se drogar diariamente com fartas doses de violência eletrônica devidamente explorada pelos programas policiais da TV. E mesmo assim, igual a arvore do início do filme, eles tentam resistir a tudo.

Sempre atento às mazelas da sociedade brasileira, Bianchi, neste seu novo trabalho, mostra-se mostra também um bom diretor de suspense. Sem abandonar seu tema preferido, é claro, de denúncias sociais. Entre seus méritos está o de equalizar, para cima, um time de atores conhecidos e desconhecidos, onde ninguém destoa. Marat Descartes conduz o eixo principal da narrativa numa atuação tensa e contida que faz lembrar – e isso é um elogio – os melhores momentos de Marco Ricca. Ana Carbatti dá à sua personagem um dificílimo ar ao mesmo tempo maternal e sensual. As crianças também estão ótimas. E o espectador ainda é brindado com rápidas mais bem-vindas participações especiais de Caio Blat, Leona Cavalli, Ailton Graça e Cássia Kiss que, como sempre, rouba a cena.

Tecnicamente, destaca-se também um ótimo trabalho de fotografia e direção de arte. A casa da família é clara, arejada, banhada por luzes azuis e brancas que passam a sensação do estado de espírito de seus moradores e, consequentemente, sublinham o desespero provocado pela mais do que incômoda presença dos vizinhos. Os objetos de cena, todos coerentes com a situação econômica da família, são cuidadosamente arrumados, dispostos numa ordem igualmente coerente com os valores de seus protagonistas. Há café, leite, sucos, toalha posta, cerca baixa, jogo de futebol na TV abraçado com o filho, cabelos de filha escovados pela mãe... carinho. Afinal, como Valter sempre diz, trata-se de uma casa construída pelo pai dele, “tijolo por tijolo”.

Eram outros tempos, talvez, de mais ética e menos violência.

Prêmios e Indicações


» Melhor Roteiro (Sérgio Bianchi e Beatriz Bacher) e Atriz Coadjuvante (Ana Carbati) no Festival do Rio 2009

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CURIOSIDADES

Do mesmo diretor de Quanto Vale ou É Por Quilo? e Crônica Inviável.
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