O Mágico troca diálogos por trilha e ambientação sonora

Heitor Augusto
O Mágico Quando um filme é observado com um distanciamento pós-sessão, a música, se utilizada de maneira elementar, é um dos elementos cinematográficos que chamam a atenção. Associa-se a música – ou canções, dependendo da produção – à ambientação, ao clima de uma época, transmissão dos sentimentos de um personagem ou de uma situação na trama.

No caso de O Mágico, a trilha sonora teve de satisfazer todas essas necessidades e muitas outras. Na animação de Sylvain Chomet, não há diálogos, o que significa dizer que o som é fundamental para entendermos o personagem e embarcarmos na ambience dos 1950. Em suma, a trilha é fundamental por reforçar o caráter lúdico da animação, ao mesmo tempo que coloca os personagens num mundo concreto.

O grande confronto de Tatischaff é a mudança representada pela passagem dos anos 1950 aos 60: as ilusões de um mágico não têm o mesmo apelo de outrora. O estilo da canção dos chansonniers é contraposto com o rock iê-iê-iê trazido pelos Beatles.

Musicalmente, são essas duas linhas que dividem O Mágico. A canção tradicional francesa em confronto com o rock, gênero em ascensão que se tornaria onipresente nas vitrolas da juventude norte-americana.

Ilustram essa oposição de estilos a canção-tema Chanson Illusionist, composta pelo diretor, roteirista e animador Sylvain Chomet, e Molly Jean, do guitarrista Malcolm Ross.


A primeira [do vídeo acima], que tem arranjos de Terry Davies (Edward Mãos de Tesoura), dialoga diretamente com o estilo consagrado por Jacques Brel especialmente na primeira frase de sua carreira, anterior a Ne Me Quites Pas, fortemente marcada por temas flamencos, resultando em canções dramáticas e cômicas.

Já a segunda transpira o primeiro momento da carreira dos Beatles. Tanto que, no filme, ela é executada pelo grupo que vai roubando espaço do ilusionista Tatischaff, Billy Boy And The Britoons – não dá para negar a semelhança sonora entre “Beatles” e “Britoons”, possível referência a “britânicos”.



Paul Dutton, diretor de animação de O Mágico, comenta as influências musicais no fictício conjunto Billy Boy and The Britoons: “O bateirista se parece com o Ringo Starr. Buddy Holly poderia tranquilamente ser o guitarrista principal, assim como o baixista um John Lennon no começo de carreira. Billy Boy [o vocalista] é um amálgama de todos os ídolos pop dos anos 50. No fim das contas, acabou se parecendo muito com o Elvis Presley”.

Assim como Tatischaff e sua profissão, mágico, perdeu espaço na mudança dos tempos, a música é um dos principais elementos que ilustram essa alteração no filme.

É certamente uma pena que um dos trabalhos mais significativos em termos de trilha sonora em animações não terá um CD lançado no Brasil. A solução é prestar atenção em algumas músicas durante o filme ou escutar um breve trecho no site oficial da animação. Ou, se for o caso, comprar o álbum na Amazon.com.
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