A ALEGRIA

A ALEGRIA

(A Alegria)

2010 , 110 MIN.

14 anos

Gênero: Fantasia

Estréia: 19/08/2011

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  • Ficha técnica

    Direção

    • Felipe Bragança, Marina Meliande

    Equipe técnica

    Roteiro: Felipe Bragança

    Produção: Felipe Bragança, Lara Frigotto, Mariana Meliande

    Fotografia: Andrea Capella

    Estúdio: Duas Mariola

    Distribuidora: Espaço Filmes

    Elenco

    Carlos Caff, Cesar Cardadeiro, Clara Barbieri, Flora Dias, Gabriel Filgueira, Junior Moura, Marcio Vito, Maria Gladys, Mariana Lima, Rikle Miranda, Sandro Mattos, Tainá Medina

  • Crítica

    17/08/2011 19h07

    Quando passou em Cannes em 2010, A Alegria foi classificado como o Ovni do festival. Já em Brasília, sofreu com as justificadas comparações e citações ao cinema do tailandês Apichatpong Weerasethakul, diretor de Tio Boonmee, que Pode Recordar Suas Vidas Passadas.

    Agora que o filme de Felipe Bragança e Marina Meliande chega ao circuito comercial, é hora de eliminar os penduricalhos e caminhar em direção ao filme. Nele, fica claro a angústia com a suposta paralisia da jovens. “A alegria é minha política”, diz a menina de anel vermelho, que também assume querer “fazer coisas”, não se acomodar. Ou seja, percebe-se que A Alegria é uma carta de intenções da juventude à juventude.

    Claro que essa afirmação não implica universalidade: falamos de uma juventude, a que aponta defasagem nos processos políticos tradicionais. Um grupo num filme que prioriza uma narrativa mais próxima da fantasia. Quando sai às ruas empunhando uma faixa de protesto, Luiza (Tainá Medina), a menina que conduz o filme com seu anel vermelho, repete um ato que já não lhe diz tanto. Para ela, ação é imaginar e atravessar paredes acreditando no poder da amizade.

    Calma. Isso pode parecer conversa de doido, mas dentro do filme faz sentido, mesmo para quem não compartilha do discurso sustentado pelo filme. Na encenação distante e sóbria de A Alegria acompanhamos as aventuras diárias de Luiza no Rio de Janeiro com seus três grandes amigos: Fernando (César Cardadeiro), pretenso namorado; Duda (Rikle Miranda), que diz poder imitar a Madonna e a Beyoncé ao mesmo tempo; e Marcela (Flora Dias), fiel e impulsiva amiga que já fuma e gosta de pular os muros da escola.

    Luiza tem um pai (Márcio Vito) que entende a motivação da garota e uma mãe (Mariana Lima) constantemente preocupada. Tem também um primo (Junior Moura) que levou um tiro na chacina de Queimados, na Baixada Fluminense, e uma tia (Maria Gladys) que acredita na volta do garoto.

    Super-Heróis

    Não à toa, o subtítulo do longa é “um filme de Super-Heróis”. A Alegria não tem o olhar cool de Kick-Ass – Quebrando Tudo, mas adota um discurso de atuação da juventude análogo, o qual considero oco. Luiza pode ser vista como uma apropriação de heroína moldada no personagem Lanterna Verde, que pode criar o que quiser apenas com um anel: seu único limite é a imaginação.

    Para fugir desse mundo que não lhe diz muito, tanto a personagem quanto o filme recorrem à construção do super-herói. Justamente o que ela faz: com seus três amigos, imagina um outro Rio de Janeiro não tão medroso e desumano, com mais cor e afeto. Pena que a defesa da amizade não transcenda nesse filme como em Estrada Para Ythaca, tornando-o inócuo e circunscrita a um grupo.

    Como espectador, não compartilho com uma ideia central no filme (“a alegria é minha política”) nem me encanto com o registro narrativo que o filme escolhe. Porém, não posso deixar de apontar que é interessante a premissa de apropriar características do universo dos super-heróis, colocando-as num grupo de amigos cariocas que tentam formular proposições ao mundo.

    Política?

    Diz Marcela, amiga fiel de Luiza. “Eu queimei todos os discos de Bossa Nova do meu pai e dei para o Rottweiller da vizinha comer”. Esse diálogo deixa claro o que essa juventude do filme não quer ser e quais os valores aos quais elas não querem se anexar. Mas o que ela quer? O que almeja a juventude que nasceu após a falácia do fim da História proclamada por Fukuyama?

    A Alegria esboça uma resposta num diálogo colocado na boca de Luiza.“Com nomes que vocês não conhecem e com a mania estranha que vocês não entendem. Eles estão se erguendo do chão como fantasmas se erguem do chão porque não perderam batalha nenhuma. Because they can't speak your language right now. Mas vocês não têm ideia do que eles dizem. Podem ser anjos de plástico, monstros sem rostos, a minha imaginação”.

    Então a essência do discurso é defender o poder da imaginação frente a discursos supostamente defasados? Mas isso não é privilégio algum da juventude de hoje! Apesar de se colocar como um carta de intenções, o bem filmado A Alegria não indicou, na minha interpretação, uma defesa firme, mais profunda e distante de lugares-comuns – sendo amizade e imaginação os mais claros.

    Continuo sem saber o que quer, de fato, essa juventude aclamada pelo filme. Percebo onde eles não querem estar: longe do paradigma de maio de 68. Mas onde querem estar?


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