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A CABANA

(The Shack, 2016)

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05/04/2017 13h29
por Iara Vasconcelos

Os seres humanos têm formas diferentes de lidarem com a morte e a falta de esperança. Alguns procuram ajuda em igrejas, religiões, padres e pastores, enquanto outros se apressam aos consultórios psiquiátricos, já outros encontram alento nas pessoas ao seu redor, na natureza ou na própria vida, que diante da morte de outrem se torna ainda mais valiosa.

No best-seller de William P. Young, somos levados a nos voltar à espiritualidade como forma de cura. Mas espiritualidade não é necessariamente religião, correto? Em A Cabana, esses conceitos tentam se desvencilhar, na tentativa de uma abordagem mais "mente aberta" e convidativa, mas acabam sendo colocados na mesma caixinha. Pelo menos, essa é a impressão que a primeira adaptação cinematográfica do livro nos passa.

Na trama, um pai se revolta após ter sua filha mais nova assassinada por um pedófilo. Ao receber uma mensagem – supostamente advinda de Deus, mas que ele dúvida – resolve voltar ao local do crime, em uma cabana isolada no meio da floresta. Chegando lá, ele passa por uma experiência que mudará completamente o seu modo de pensar e encarar a vida.

O diretor Stuart Hazeldine tenta incorporar ao filme um clima de mistério, com um pouco de road movie e drama bem açucarado. É notável a preocupação da trama em não parecer confrontativa e "apontar dedos". Toda a jornada do personagem, em busca da reconciliação com a sua fé e a superação do luto, é feita de forma bem didática e sempre deixando claro que a fé vem de dentro e não está relacionada a crenças específicas, entretanto o filme acaba se contradizendo em alguns pontos.

Na trama, Deus é representado pela figura de uma mulher, mas não apenas isso, é vivido por uma mulher negra, a atriz Octavia Spencer. O todo poderoso não é apenas alguém com uma aparência comum, acessível, como também é muito mais legal do que pudéssemos imaginar: Cozinha bem, tem bom-humor e ouve reggae no fone de ouvido. Poderíamos querer mais?

Para completar, Jesus e espírito santo também entram na vibe "cool". Enquanto o filho de Deus se veste como qualquer jovem hipster do século XXI – com o kit barba, camiseta xadrez e botas – o espírito santo é representado por uma japonesa com ares de top model e um discurso sobre ecologia que deixaria os membros do Greenpeace no chinelo.

Mas vejam só! O conceito de santíssima trindade está intimamente ligado a religiões cristãs. No mundo, há religiões politeístas, e algumas que não acreditam na figura de Jesus, por exemplo. Consegue perceber a incompatibilidade de conceitos? Enquanto A Cabana é vendido como um filme livre de doutrinas, o perfeito "isentão", na prática as coisas acontecem de maneira bem diferente. Claro que a ideia de fé sem restrições é válida, não à toa o livro já vendeu 22 milhões de exemplares para uma gama bem diversificada de públicos.

A Cabana explora conceitos positivos de perdão, amor e compaixão, tudo isso embrulhado em uma trama com ares de folhetim das 6, feita para emocionar a qualquer custo. Mas a narrativa é apresentada de forma tão "mastigada" e formulaica que não fornece ao espectador qualquer desafio ou reflexão aprofundada. Não há dúvidas de que terá bom desempenho nas bilheterias, mas com qualidade bem aquém do seu potencial.

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