A ERVA DO RATO

A ERVA DO RATO

(A Erva do Rato)

2008 , 80 MIN.

18 anos

Gênero: Drama

Estréia: 26/06/2009

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  • Ficha técnica

    Direção

    • Júlio Bressane

    Equipe técnica

    Roteiro: Júlio Bressane, Rosa Dias

    Produção: Bruno Safadi, Marcello Maia

    Fotografia: Walter Carvalho

    Trilha Sonora: Guilherme Vaz

    Estúdio: República Pureza Filmes, TB Produções

    Elenco

    Alessandra Negrini, Selton Mello

  • Crítica

    26/06/2009 12h16

    Não é de hoje que a ligação entre Júlio Bressane e Manoel de Oliveira (Um Filme Falado) passa por fatores que vão além de falarem a mesma língua. Como Oliveira, mesmo quando este filma em francês, Bressane deixou claro, em um filme marcante como Os Sermões, que é dos raros cineastas que sabem dar um valor imenso à palavra. Ainda que seja pela ausência, como em A Erva do Rato, seu último trabalho, já exibido no Festival do Rio de 2008. A falta de palavras, em determinado momento, tem um peso que equivale aos textos pesados que um e outro costumam valorizar com imagens densas.

    E é justamente no tratamento dado à imagem estática, à simetria dos enquadramentos e sobretudo às sombras, que os dois se aproximam de forma inequívoca. Se em Cleópatra, filme anterior de Bressane, encontramos uma transposição do universo das imagens de Oliveira para um cinemascope deslumbrante e de colorido berrante, ao contrário da sobriedade da palheta usada pelo mestre português, em A Erva do Rato, o rigor é quase paralisante, no limite do retrocesso, o que só aumenta a sensação de estranhamento que temos diante de suas imagens.

    Baseado em dois contos do genial Machado de Assis, escritor de onde saiu a matéria prima de Brás Cubas, um dos filmes inesquecíveis de Bressane, A Erva do Rato nos mostra uma das melhores interpretações da carreira de Selton Mello, pau a pau com a de Garotas do ABC, obra de Carlos Reichenbach (Falsa Loura) em que interpreta um fascista asqueroso. Há, também, a atuação hipnótica de Alessandra Negrini, bem distante de sua criação multifacetada de Cleópatra. Temos, assim, dois atores globais completamente deslocados do que costumam fazer na televisão, o que já garante algumas interrogações iniciais no público que não acompanha a carreira do diretor. Mas isso é só o começo.

    O que se passa no decorrer dos planos estáticos, com a fotografia do Walter Carvalho ameaçando transbordar o tempo todo, é simples: homem conhece mulher no cemitério, e desenvolve com ela uma relação curiosa. A curiosidade não é só do ponto de vista do espectador em direção ao filme, mas dele em direção a ela, aos mistérios do corpo feminino, à revelação do órgão sexual por uma câmera fotográfica. O estranhamento de quem está diante da tela encontra um eco no estranhamento do personagem de Mello diante do corpo imóvel e desnudo, que parece esconder um mundo para o qual ele não tem acesso que não seja pela mediação de uma lente.

    Nos minutos finais, a bizarrice domina (mais do que isso não posso dizer), e o filme cresce com isso. O último plano, de uma complexidade formal absurda para dar conta de uma ação simples, que pode ser percebida pelo barulho da máquina fotográfica, revela que Bressane ficou realmente deslumbrado com a técnica de Walter Carvalho. Por enquanto tudo vai bem: A Erva do Rato tem muitos méritos, um deles certamente é o desconforto que provoca no espectador, que se sente impelido a uma revisão, desde que a preguiça ou a intolerância com o diferente não o tenha levado à desistência num primeiro momento. Mas esse encanto preciosista, a curto ou médio prazo, pode significar um beco sem saída para seu cinema. Não duvido que possa dar marcha a ré. Mas seria, de qualquer forma, uma involução.

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