A VIDA SOBRE A TERRA

A VIDA SOBRE A TERRA

(La Vie Sur Terre)

1998 , 61 MIN.

10 anos

Gênero: Drama

Estréia:

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  • Ficha técnica

    Direção

    • Abderrahmane Sissako

    Equipe técnica

    Roteiro: Abderrahmane Sissako

    Produção: Abderrahmane Sissako

    Elenco

    Abderrahmane Sissako, Bourama Coulibaly, Keita Bina Gaousso, Mohamadou Dramé, Nana Baby, Nohamed Sissako

  • Crítica

    22/05/2009 11h03

    Quantos filmes produzidos na Mauritânia você já viu na vida? Aliás, onde fica a Mauritânia? Provando mais uma vez que o cinema não tem fronteiras, estréia em São Paulo neste final de semana Vida Sobre a Terra, uma co-produção entre a Mauritânia, as Ilhas Maurício e a França.
    Vida Sobre a Terra faz parte do projeto “O Ano 2000 Visto Por...”, realizado pela produtora francesa Arte, que convidou diversos cineastas do mundo inteiro para que eles realizassem um filme sobre a passagem de 1999 para o ano 2000 (o representante brasileiro foi O Primeiro Dia, de Walter Salles e Daniela Thomas).

    O filme tem apenas 61 minutos. Se tivesse dois a menos, seria considerado um média-metragem, de acordo com os critérios da Cinemateca Francesa. Mas como – também no cinema – tamanho não é documento, o roteirista e diretor Abderrahmane Sissako demonstra bastante sensibilidade e domínio de câmera, neste que é o primeiro longa de sua carreira.

    Tudo se passa na pequena vila de Sokolo, encravada em algum lugar na África, no dia 31 de dezembro de 1999. A espera do reveillon, os habitantes do lugarejo vivem suas vidas tranqüilamente, sem nenhum tipo de pressa. Estresse, apenas o da miséria crônica. Uns tiram fotos no lambe-lambe. Outros tentam – sem sucesso – alguma comunicação externa através do único e ineficiente posto telefônico local. “Comunicação é questão de sorte. Ela pode acontecer ou não”, diz um dos personagens.
    Roupas coloridíssimas contrastam com a aridez da paisagem. De areia e pedra, as residências são quase tribais. O transporte é feito a pé, de burro, de bicicleta ou – no auge da modernidade – de mobilete. Mas há espaço para sonhar com uma sofisticada blaser importada do Japão, ou portas que se abrem automaticamente.
    O ritmo dos habitantes é ditado pelo calor: preguiçosamente, eles arrastam suas cadeiras sempre em busca de sombra, como um grande relógio de sol humano. Em meio ao silêncio do quase deserto, uma rádio parisiense fala de nevascas e das luzes da Torre Eiffell. Mas Sokolo resiste à globalização.

    Quem se dispuser a deixar do lado de fora do cinema toda a neurose urbana, quem se propuser a embarcar no ritmo africano proposto por Sissako, e quem não tiver nenhum preconceito contra filmes onde ninguém atira contra ninguém, certamente vai ter uma ótima surpresa. Vida Sobre a Terra é um calmo e introspectivo hino de amor à Paz. Ele acusa claramente o continente europeu de ser o grande responsável pelo maior número de cadáveres já visto na história da Humanidade. Mas não pede vingança. Com paciência, ele prega apenas que a verdadeira missão do Homem ainda está para chegar. Uma missão que – na visão do cineasta – será empreendida pelas pessoas simples.

    Mais que apenas uma virada de ano, a passagem de 1999 para 2000 vem carregada de um inexplicável otimismo de que tudo vai mudar. Não se sabe muito bem como nem por quê, mas a esperança contida no roteiro é de lavar a alma.

    A cena final é repleta de beleza simbolismo: milhares e milhares de pássaros que ameaçam a colheita de arroz são espantados por pequenos agricultores que sacodem bandeiras brancas pelo ar. Só isto já renderia uma monografia de pós-graduação para qualquer teórico de cinema. Mas é melhor deixar as teorias de lado e deixar a emoção voar.

    Em tempo: a Mauritânia é um país do noroeste da África, na região do deserto do Saara, localizado entre o Marrocos, Senegal, Argélia e Mali. A capital é Nouakchott. Cineclick também é cultura.

    27 de agosto de 2000
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    Celso Sabadin é jornalista especializado em cinema desde 1980. Atualmente é crítico da Rede Bandeirantes de Rádio e Televisão, e do Canal 21.

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