Pôster do filme A Voz Adormecida

A VOZ ADORMECIDA

(La Voz Dormida)

2011 , 128 MIN.

16 anos

Gênero: Drama

Estréia: 12/07/2013

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  • Ficha técnica

    Direção

    • Benito Zambrano

    Equipe técnica

    Roteiro: Benito Zambrano, Ignacio del Moral

    Produção: Antonio P. Pérez

    Fotografia: Alex Catalán

    Trilha Sonora: Juan Antonio Leyva, Magda Rosa Galván

    Estúdio: Audiovisual Aval SGR, Maestranza Films S.L, Warner Bros. Pictures

    Montador: Fernando Pardo

    Distribuidora: Imovision

    Elenco

    Adelfa Calvo, Amaia Lizarralde, Amparo Vega León, Ana Wagener, Ángela Cremonte, Arantxa Aranguren, Begoña Maestre, Berta Ojea, Charo Zapardiel, Daniel Holguín, Inma Cuesta, Jesús Noguero, Lola Casamayor, Marc Clotet, Mari Carmen Sánchez, María León, Miryam Gallego, Susi Sánchez, Teresa Calo

  • Crítica

    09/07/2013 16h38

    Existe uma repetição muito sombria na história da humanidade. Quando uma Guerra se dissipa, da bagunça de suas ruínas, parece emergir um sentimento mais sanguinário ainda: um misto de vingança e oportunismo encontra lugar em meio ao desolamento profundo. Foi assim após a Revolução Francesa, nos anos do Terror liderados pela esquerda; foi assim após a Guerra Civil Espanhola, com a ditadura de extrema-direita de Francisco Franco.

    A obra Guernica, de Pablo Picasso, eternizou as dores da Guerra na Espanha. Já A Voz Adormecida, filme de Benito Zambrano baseado no livro de Dulce Chacón, mergulhou nas trevas após esse período, em um inferno dantesco que unia Exército, Igreja e latifundiários contra a Frente Popular.

    Na trama, Pepita vai de Córdoba à Madrid para tentar ajudar a irmã mais velha, Hortensia, grávida e presa em uma cadeia só de mulheres por estar envolvida na luta política. Assim, ela enfrenta os perigos inerentes a essa proximidade. María León tem uma excelente atuação na pele da jovem, tanto que seu desempenho lhe rendeu o Goya 2012 na categoria Melhor Atriz Revelação. Os coadjuvantes também merecem destaque, pois seguram a forte carga dramática.

    A primeira sequência de A Voz Adormecida, na qual uma das prisioneiras será fuzilada – sendo que nem aparentava envolvimento político – já mostra como o filme será conduzido. Não há espaço para nenhum respiro aliviado. Nas duas horas do longa, predomina a tensão de que o pior sempre está para acontecer.

    Esse sentimento tem suporte de várias passagens da narrativa. Em uma delas, as presas são levadas para assinar os papéis de suas acusações. Da entonação calma para os gritos do juiz, basta uma palavra mais ousada. Na mesa de jantar da casa onde Pepita trabalha, o pai e o irmão de seu patrão, favoráveis à ditadura, demonstram a mesma oscilação entre uma aparência ordeira e a raiva descontrolada quando contrariados.

    Alguns takes, particularmente, imobilizam a sensação de dor: as mãos acorrentadas de várias prisioneiras ouvindo a sentença final; a protagonista jogada no canto de uma cela; a cruz negra no mórbido cenário de tortura; as grades que separam as duas irmãs. A iluminação parcial, com foco de luz incidindo com força sobre faces e corpos, remete ao estilo barroco nos ambientes escuros e expressões de sofrimento.

    O sentimento de possível separação também se faz presente na relação das irmãs, de Hortensia e seu marido, de Pepita e seu amor clandestino, da mãe que poderá ser morta deixando a filha pequena para trás. Por outro lado, a partir dele, nasce a capacidade de crer e esperar.

    A falta de humanidade das freiras e padres evidencia a enorme diferença entre religião e espiritualidade em determinadas épocas. Aqui, a instituição une-se ao poder autoritário para instaurar o medo. A perseguição de cunho político assemelha-se à caça às bruxas na Idade Média. Dessa forma, vestimenta de autoridades da Igreja, assim como demais símbolos cristão, enfatizam o terror generalizado.

    Talvez, o único deslize de A Voz Adormecida seja não explorar um pouco mais as ações e reações da esquerda diante do quadro exposto, mostrando a dualidade aguçada em um conflito desta proporção. O formato do final, com uma narração quase novelesca, também desaponta.

    Entretanto, a densidade marcante do longa espanhol faz dele um ótimo filme, conseguindo transmitir o terror enfrentado naquela época às novas gerações. Na medida em que a História parece se tornar uma disciplina dispensável no currículo escolar – vide o caso do Brasil -,  talvez seja papel do cinema, mais do que nunca, mantê-la viva.

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