ADAPTAÇÃO

ADAPTAÇÃO

(Adaptation)

2002 , 114 MIN.

16 anos

Gênero: Comédia

Estréia:

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  • Ficha técnica

    Direção

    • Spike Jonze

    Equipe técnica

    Roteiro: Charlie Kaufman, Donald Kaufman

    Produção: Edward Saxon, Jonathan Demme, Vincent Landay

    Fotografia: Lance Acord

    Trilha Sonora: Carter Burwell

    Estúdio: Propaganda Films

    Elenco

    Agnes Baddoo, Brigitte Bogle, Cara Seymour, Caron Colvett, Chris Cooper, Jane Adams, Jim Beaver, John Cusack, Maggie Gyllenhaal, Meryl Streep, Nicolas Cage, Ray Berrios, Rheagan Wallace, Tilda Swinton

  • Crítica

    22/05/2009 11h03

    Se você acredita que não consegue se adaptar a um tipo diferente de cinema, sem as fórmulas prontas do produto hollywoodiano, é melhor você não assistir a Adaptação, o novo trabalho de Spike Jonze (o mesmo diretor de Quero Ser John Malkovich). Para curti-lo, é necessária uma certa dose de desprendimento, baixar a guarda, e estar aberto às elucubrações de um filme diferenciado, em se tratando de produção norte-americana.

    A trama mostra o roteirista Charlie Kaufman (Nicolas Cage) diante de um bloqueio criativo. Ele não consegue cumprir a promessa de adaptar para o cinema o livro O Caçador de Orquídeas, escrito por Susan Orlean (Meryl Streep). Este pano de fundo convencional na verdade é apenas o ponto de partida para que o filme abra fogo contra os padrões pré-estabelecidos de Hollywood e sua indústria de enganos. Nada é o que parece. Tudo é um caldeirão de ilusões. O supostamente caipirão e ladrão de orquídeas John Laroche (Chris Cooper, quase irreconhecível sem os dentes da frente) na verdade é um conquistador astuto que sabe como viver a vida e tem até tempo para vender drogas alucinógenas (outra referência ao ilusório). A supostamente sofisticada escritora nova-iorquina Susan Orlean, na verdade, mostra ter bem menos escrúpulos - e classe - do que parece. Teoricamente, o gênio da família Kaufman seria Charlie, roteirista de sucesso, mas Hollywood acaba mesmo abrindo suas portas para seu irmão gêmeo Donald (também interpretado por Cage), que teoricamente seria o fracassado da família. E fechando este jogo de ilusões, o filme que a princípio abomina o clichê da correria e da perseguição hollywoodiana, termina em correria e perseguição hollywoodiana.

    Merecidamente indicado ao Oscar da categoria, o roteiro de Adaptação foi escrito por ninguém menos que Charlie Kaufman. Sim, ele existe (e não é Nicolas Cage). Não apenas Charlie, como a escritora Susan Orlean, e todo o caso da adaptação do livro O Caçador de Orquídeas. Que também existe na vida real. Esta mistura de realidade, ficção e muita metalinguagem é um dos charmes do ótimo roteiro que não se poupa de críticas e autocríticas. Não deixa de ser divertida a cena em que Charlie, constrangido, se matricula num curso de roteiros cinematográficos que ensina exatamente os clichês que ele próprio abomina. E que o roteiro de Adaptação - escrito pelo Charlie verdadeiro - use e abuse da narração em off, ferramenta execrada pelo "professor" do curso.

    Em meio a tantas referências, citações e metalinguagem, o auge do jogo de ilusões do cinema não poderia ser mais significativo: Donald Kaufman, o irmão gêmeo de Charlie, está concorrendo ao Oscar de roteiro por este filme. Mas Donald não existe. Ele consta nos créditos, mas o personagem é pura invenção de Charlie. Pode ser a primeira vez que o Oscar de Melhor Roteiro seja entregue a um personagem meramente ficcional. E por que não? Não é toda a Academia de Hollywood uma grande mentira?

    19 de fevereiro de 2003

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    Celso Sabadin é jornalista e crítico de cinema da Rádio CBN. Às sextas-feiras, é colunista do Cineclick. [email protected]

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