AO SUL DA FRONTEIRA

AO SUL DA FRONTEIRA

(South of the Border)

2009 , 78 MIN.

Gênero: Documentário

Estréia: 04/06/2010

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  • Ficha técnica

    Direção

    • Oliver Stone

    Equipe técnica

    Roteiro: Mark Weisbrot, Tariq Ali

    Produção: Fernando Sulichin, José Ibáñez, Robert S. Wilson

    Fotografia: Albert Maysles, Carlos Marcovich, Lucas Fuica

    Trilha Sonora: Adam Peters

    Estúdio: Good Apple Productions, Ixtlan, Muse Productions, New Element Productions, Pentagrama Films

    Distribuidora: Europa Filmes

    Elenco

    Cristina Fernández de Kirchner, Evo Morales, Fernando Lugo, Hugo Chávez, Lula, Néstor Kirchner, Rafael Correa, Raúl Castro, Tariq Ali

  • Crítica

    31/05/2010 20h09

    Oliver Stone perdeu uma imensa chance. Em Ao Sul da Fronteira, parte da seguinte interrogação: “o que tem acontecido na América do Sul desde meados o fim da década de 90? Por que vemos novas figuras políticas de esquerda nas presidências?” Questões que poderiam resultar em um filme que problematizasse os processos históricos sul-americanos.

    Stone viajou por Venezuela, Bolívia, Argentina, Brasil, Paraguai, Equador e Cuba. Tentando assumir a posição de jornalista, conversou com Hugo Chávez, Evo Morales, Néstor e Cristina Kirchner, Lula, Fernando Lugo, Rafael Correa e Raúl Castro.

    Qual é o principal equívoco de Stone, diretor de ficções como Wall Street – O Dinheiro Nunca Dorme e W.? Seu documentário mostra desconhecimento sobre as realidades locais e carece de visão sobre o processo histórico que ocorreu em cada um dos países. Imbuído pelo deslumbre com as transformações da América do Sul, que de fato ocorrem no plano macro político, Ao Sul da Fronteira coloca todos os países sob o mesmo guarda-chuva.

    Sim, a eleição de Chávez em 1998 iniciou uma guinada à esquerda na Venezuela e ele serviu como a principal força de oposição a atuação norte-americana por aqui. Sim, a eleição do moderado Lula também viria a contribuir que tanto Venezuela quanto Cuba não fossem atiradas diretamente à fogueira de Bush. Sim, a direita venezuelana (apoiada pela imprensa) tentou dar um golpe em 2002, apoiado pelos EUA, para tirar um presidente democraticamente eleito do cargo.

    Só que, para Ao Sul da Fronteira, não há muita diferença no processo que levou Chávez à presidência com a situação política que Néstor Kirchner enfrentou na chegada ao poder em 2003. Ou aos movimentos populares que fizeram de Evo Morales uma realidade política com a conciliação de esquerdas no Paraguai de Fernando Lugo. Ou da saga operário-chega-ao-poder de Lula com o histórico humanista-cristão de Correa.

    Faltam sutileza e pontos de interrogação no documentário. A simples título de comparação, seria o mesmo que fazer um filme sobre a luta pelos direitos civis nos Estados Unidos e afirmar que a recepção às demandas dos negros foi a mesma tanto na sulista Houston como nas combativas Chicago e Boston.

    Um documentário sobre um tema tão contemporâneo teria, ao menos, duas missões básicas: ampliar olhares, tirando verdades encobertas dos bastidores, e instigar o debate. Tenho dúvidas da energia de Ao Sul da Fronteira em ambos os casos.

    Ao primeiro, porque quem tem um conhecimento médio sobre o que tem acontecido e, no caso dos americanos, não se informa apenas pela Fox News (ou por âncoras nojentos como Gretchen Carlson, Glenn Black ou Bill O’Reily), é perceptível que o panorama sul-americano mudou.

    Ao segundo, por causa das opções de Oliver Stone. Como entrevistador, não há tréplicas. Ele pergunta, o presidente responde e fica por isso mesmo. Se um deles enxerga na câmera a possibilidade de palanque, não há contestação. São heróis, no pior sentido – aquele romântico, do líder puro, que não comete erros e nunca se contradiz.

    Isso leva ao tendão de Aquiles de Ao Sul da Fronteira: por ser tão preso ao oficial e falar de transformações que envolvem diretamente a militância popular sem trazer entrevistas com o povo, o filme adere integralmente aos seus entrevistados, os cinco presidentes. Um tiro no pé, porque aumenta as chances de conversar com quem justamente não tem a menor idéia do que se passa na política.

    Aí sobra espaço para os centro-direita ou centro-esquerda chamarem Stone de tendencioso. “Tendencioso”, aliás, é um direito dele que, como documentarista, tem a visão política que quiser. Só que um dos preços é ter pouco apelo a quem está justamente no centro. Quem é de esquerda vai assistir ao filme e apontar suas contradições e limitações de análises locais. Quem está no centro vai falar que Chávez ou Morales não passam de potenciais ditadores. Quem é de direita vai ter mais uma “prova” de que eles são autoritários de fato.

    E vai tudo continuar na mesma, com um filme minando as próprias possibilidades de diálogo. Que termina com a seguinte sentença de Oliver Stone: “o problema está no capitalismo predatório”. Então ele viajou por cinco países para chegar a essa conclusão? Tenho a sensação de que, se isso é a síntese de sua visão, o que resulta do filme é uma baita broxada.

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