AQUELE QUERIDO MÊS DE AGOSTO

AQUELE QUERIDO MÊS DE AGOSTO

(Aquele Querido Mês de Agosto)

2008 , 174 MIN.

Gênero: Romance

Estréia: 14/08/2009

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  • Ficha técnica

    Direção

    • Miguel Gomes

    Equipe técnica

    Roteiro: Mariana Ricardo, Miguel Gomes, Telmo Churro

    Produção: Luís Urbano, Sandro Aguilar

    Fotografia: Rui Poças

    Trilha Sonora: Rui Poças

    Elenco

    Fábio Oliveira, Joaquim Carvalho, Manuel Soares, Sónia Bandeira

  • Crítica

    13/08/2009 09h53

    Na primeira cena, uma raposa tenta encontrar um meio de entrar num galinheiro. As aves, em tensão crescente, temem pelo pior. A cara da raposa quando, de uma maneira súbita e surpreendente, consegue entrar, é impagável. Como uma criança diante de um prato de mingau, ela está sedenta. Um corte imposto pelo diretor não nos permite ver o estrago. Mas fica claro que a imagem funciona como uma metáfora do que veremos a seguir, em mais de um nível.

    Primeiro a raposa perseguindo as galinhas remete ao diretor perseguindo os atores para a história que ele quer contar. Ele deixa indicações bem claras das características de seus personagens e vai atrás de pessoas - de preferência, sem experiência prévia em atuação - para interpretá-los. Como são músicos, acompanha uma série de bandas populares em uma região específica de Portugal. Elas tocam em bailes noturnos músicas que falam de traição e relacionamentos.

    Segundo porque é o próprio filme que persegue uma dramaturgia convencional, que acaba justamente quando ela estava consolidada na tela. É o processo todo que nos é mostrado, mesclando-se, aos poucos, com o filme que o diretor Miguel Gomes tem na cabeça, numa operação inusitada de falso documentário.

    Em terceiro, vemos Gomes se colocando em cena e perseguindo uma originalidade incrível. Seu apetite é o de um subversivo, mas sua calma é de um diretor que sabe muito bem o que quer, embora finja que está desinteressado, como na hora em que tenta deixar uma pretensa atriz a ver navios para que ele possa jogar malha.

    O que difere Aquele Querido Mês de Agosto de vários outros filmes cuja proposta é fazer com que a realidade invada a ficção é que este se abre por completo ao que seria visto facilmente como problemas de produção. Ele escancara (ou finge escancarar) todos os percalços do processo e faz disso o cerne do filme. Diferentemente de Samba-Canção, de Rafael Conde, no qual vemos todos os percalços se transformando dentro do filme pronto, numa brincadeira divertida com os tempos, o filme de Miguel Gomes vai ele próprio se alterando à medida que ele encontra seus atores. O real deixa de invadir o filmado.

    Mas o que é real? E o que é filmado? Talvez a melhor diversão não seja procurar a resposta para estas perguntas, mas se deixar levar pela prosa deliciosamente autorreferente expressa neste trabalho surpreendente e muito original. São tantos depoimentos engraçados - no que o uso inteligente da língua portuguesa para nós, brasileiros, revela algumas nuances que fazem toda a graça, seja pelo sotaque, seja pela entonação com que cada coisa é dita - que o filme se torna uma comédia rasgada em muitos momentos, perdendo um pouco o pique somente quando ameaça se tornar mais convencional, justamente quando os atores são encontrados e a trama começa a aparecer. Mas aí surge o diálogo final entre o diretor e o engenheiro de som (que contribui também com sua feição de aparente indiferença): um verdadeiro deleite para nossos ouvidos.

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