BABILÔNIA 2000

BABILÔNIA 2000

(Babilônia 2000)

2000 , 80 MIN.

12 anos

Gênero: Documentário

Estréia:

página inicial do filme
  • Ficha técnica

    Direção

    • Eduardo Coutinho

    Equipe técnica

    Produção: Donald K. Ranvaud, Eduardo Coutinho

    Fotografia: Consuelo Lins, Daniel Coutinho, Eduardo Coutinho, Geraldo Pereira

    Elenco

    Maria Augusta do Nascimento, Ranulfo Gonçalves e diversos moradores das favelas Chapéu Mangueira e Babilônia, Roseli da Silva

  • Crítica

    22/05/2009 11h03

    Subir os morros cariocas com uma equipe de filmagem e registrar a vida de seus habitantes. A idéia – colocada assim de bate pronto – parece tão antiga quanto o próprio cinema documental. Porém, realizá-la com maestria já é uma história bem diferente. Uma história que só um experiente documentarista poderia concretizar com precisão e emoção. Uma tarefa para Eduardo Coutinho, diretor Cabra Marcado Pra Morrer e Santo Forte, entre outros.

    No dia 31 de dezembro de 1999, Coutinho e sua equipe visitaram as favelas Chapéu Mangueira e Babilônia, munidos de câmeras digitais, equipamento de iluminação, e o objetivo de registrar os anseios, desejos e expectativas da população local em relação ao ano 2000. Estas duas favelas são as únicas situadas no bairro de Copacabana e, conseqüentemente, as melhores para se observar a tradicional queima de fogos de artifício do reveillon carioca. Mas a alegria e a explosão dos fogos coloridos é coerente com os sentimentos de quem assiste ao espetáculo?

    Os depoimentos obtidos são de impressionante espontaneidade. Homens, mulheres e crianças entrevistadas se comportam diante das câmeras com extrema naturalidade. Abrem seus corações, riem, choram, se emocionam, falam de tudo e de todos. Nas mãos de Coutinho, a câmera se transforma num confessionário, num fórum.
    Uma garotinha diz que seu maior sonho para o ano 2000 é ver “A Bela e A Fera”. “O filme?”, alguém pergunta. “Não. Pessoalmente, porque eu amo eles”, responde a menina, com os olhos brilhando. Outra moradora mostra – com espantosa naturalidade – os rombos que as balas da polícia abriram durante a última batida. E não são poucos os pais que se emocionam ao falar de seus filhos mortos pela criminalidade. Tudo isso sem um pingo do sensacionalismo barato que já nos acostumamos a ver em reportagens de televisão.

    As histórias curiosas pipocam. Um rapaz se orgulha de ter participado – como ator – do filme Orfeu do Carnaval. Um cantor evangélico solta a voz e exibe o CD que conseguiu gravar com suas interpretações. Alguém discursa com fluência e coerência contra a globalização. Tem gente que fez teatro. Tem gente que trabalhou para Juscelino Kubitsheck. Alienação? Nem pensar. Quem ainda pensa que a população carente do Brasil não tem acesso à informação está redondamente enganado.

    Babilônia 2000 é um envolvente desfile de opiniões, imagens e emoções proporcionadas por uma parcela da população que nunca tem voz. É um raro momento da mídia nacional (sim, é sempre bom lembrar que o cinema é mídia) onde o excluído é o dono da palavra, e não apenas um coadjuvante de um bizarro circo de horrores.

    Sem narração, nem trilha sonora, muito menos efeitos especiais, sem pretensões estéticas, o filme tem toda a sua força localizada pura e simplesmente nas pessoas focalizadas. Pura e simplesmente. Estas duas palavras já dizem tudo.



    03 de janeiro de 2001
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    Celso Sabadin é jornalista especializado em cinema desde 1980. Atualmente é crítico de cinema da Rede Bandeirantes de Rádio e Televisão e do Canal 21. Às sextas-feiras é colunista do Cineclick. [email protected]

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