BAIXIO DAS BESTAS

BAIXIO DAS BESTAS

(Baixio das Bestas)

2007 , 80 MIN.

18 anos

Gênero: Drama

Estréia: 11/05/2007

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  • Ficha técnica

    Direção

    • Cláudio Assis

    Equipe técnica

    Roteiro: Cláudio Assis, Hilton Lacerda

    Produção: Cláudio Assis, Julia Moraes

    Fotografia: Walter Carvalho

    Trilha Sonora: Pupillo

    Elenco

    Caio Blat, Dira Paes, Fernando Teixeira, Hermila Guedes, Irandhir Santos, Marcélia Cartaxo, Mariah Teixeira, Matheus Nachtergaele

  • Crítica

    11/05/2007 00h00

    O cineasta pernambucano Cláudio Assis é contestador por natureza. Na verdade, ele até gosta de ter esse papel, tornando-se figura essencial no cenário do cinema nacional contemporâneo. Amarelo Manga (2002), seu primeiro longa-metragem, mostrou a natureza do diretor, que expõe seus personagens sem máscaras ou maquiagens. Como não poderia ser diferente, Assis faz o mesmo em Baixio das Bestas, mas de uma forma mais madura, mas sem deixar de escancarar seus personagens miseráveis em todos os sentidos.

    Se em Amarelo Manga Assis centrava a ação numa Recife urbana, Baixio das Bestas expõe a miséria de um grupo de pessoas que vive na Zona da Mata pernambucana. A ação se passa em dois núcleos: primeiramente, temos o drama vivido por Auxiliadora (Mariah Teixeira). Frágil, não aparenta ter mais do que 13 anos, mas é explorada pelo avó Heitor (Fernando Teixeira). Ele vive reclamando e dando lições de moral, mas sobrevive explorando sua neta, que, durante o dia, lava e passa roupas para outras famílias; à noite, é levada pelo avô aos fundos de um posto de gasolina. Nua, sob uma lâmpada, é observada por homens que pagam alguns reais para isso. Na cidade, temos Cícero (Caio Blat), jovem estudante de Recife que volta à casa da mãe nos fins de semana, quando sua rotina se resume a dormir no sofá e sair com seu amigo Everardo (Matheus Nachtergaele). Eles costumam ficar num cinema pornô abandonado e, à noite, promovem orgias violentas na casa de Dona Margarida (Conceição Camarotti), onde moram algumas prostitutas.

    Baixio das Bestas é alimentado pela cultura do local. Não é somente o Maracatu que marca a produção, característica cultural "de exportação" de Pernambuco, ou mesmo a economia em decadência que gira em torno das plantações de cana e usinas de açúcar, mas, principalmente, a forma como a mulher é vista. Numa sociedade extremamente machista, o sexo e a violência são praticamente a mesma coisa. Não somente a física, mas principalmente a psicológica, seja contra a mãe, a neta ou a prostituta. Os homens de Baixio das Bestas são desagradáveis e tratam a mulher de uma forma violenta, como se fossem pedaços de carne, e é isso o que mais incomoda no longa-metragem. As exceções são raras, mas existem, sobrevivendo à esperança, que já morreu faz tempo, talvez queimada com as plantações no final do filme. Se em Amarelo Manga seus personagens procuram o amor de uma forma errada, aqui eles buscam o escapismo no sexo da forma mais animalesca possível. Em ambos, uma coisa em comum: a miséria espiritual ao seu extremo.

    Neste filme, Assis trabalha novamente com o roteirista Hilton Lacerda e o diretor de fotografia Walter Carvalho. Por isso, algumas características do filme anterior são mantidas, especialmente ao expor os piores lados de seus personagens de uma forma chocante, como o diretor pretende. No entanto, aqui ele mostra amadurecimento na direção, um cuidado melhor na composição das cenas. Nachtergaele e Dira Paes voltam a trabalhar com o diretor, mais uma vez mostrando por que são parte do grupo dos melhores atores em atividade no cinema nacional, ao lado de Caio Blat (Batismo de Sangue) e Hermila Guedes (O Céu de Suely), também no fortíssimo elenco da produção.

    Em um momento do filme, o personagem Everardo manda o recado: "O bom do cinema é que você pode fazer o que quiser". Cláudio Assis faz o que quer por meio de seus filmes: provoca e faz pensar ao mostrar um Brasil sujo e miserável, mas honesto. A verdade tem de ser dita e ele está aí para fazer isso, não para produzir um cinema de escape, cheio de maquiagens e fantasia. Esta não é sua proposta e o espectador deve estar preparado a isso antes de resolver assistir a Baixio das Bestas.

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