BATMAN - O CAVALEIRO DAS TREVAS

BATMAN - O CAVALEIRO DAS TREVAS

(The Dark Knight)

2008 , 152 MIN.

12 anos

Gênero: Ação

Estréia: 14/07/2008

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  • Ficha técnica

    Direção

    • Christopher Nolan

    Equipe técnica

    Roteiro: Christopher Nolan, Jonathan Nolan

    Produção: Charles Roven, Christopher Nolan, Emma Thomas, Lorne Orleans

    Fotografia: Wally Pfister

    Trilha Sonora: Hans Zimmer, James Newton Howard

    Estúdio: DC Comics, Legendary Pictures, Syncopy, Warner Bros. Pictures

    Elenco

    Aaron Eckhart, Adam Kalesperis, Aidan Feore, Andrew Bicknell, Andy Luther, Anthony Michael Hall, Ariyon Bakare, Beatrice Rosen, Brandon Lambdin, Bronson Webb, Charles Venn, Chin Han, Chris Petschler, Christian Bale, Cillian Murphy, Colin McFarlane, Craig Heaney, Dale Rivera, Danny Goldring, Daryl Satcher, David Ajala, David Dastmalchian, Doug Ballard, Edison Chen, Eric Roberts, Erik Hellman, Gary Oldman, Gertrude Kyles, Grahame Edwards, Greg Beam, Hannah Gunn, Heath Ledger, Helene Wilson, Ian Pirie, James Farruggio, James Fierro, James Scales, Jennifer Knox, Jonathan Ryland, Joseph Luis Caballero, Joshua Harto, Joshua Rollins, K. Todd Freeman, Keith Kupferer, Keith Szarabajka, Lanny Lutz, Lateef Lovejoy, Lisa McAllister, Lorna Gayle, Maggie Gyllenhaal, Matt Rippy, Matt Shallenberger, Matthew Leitch, Matthew O'Neill, Melinda McGraw, Michael Andrew Gorman, Michael Caine, Michael Corey Foster, Michael Jai White, Michael Stoyanov, Michael Vieau, Monique Gabriela Curnen, Morgan Freeman, Nancy Crane, Nathan Gamble, Nestor Carbonell, Nigel Carrington, Nydia Rodriguez Terracina, Olumiji Olawumi, Patrick Clear, Patrick Leahy, Paul Birchard, Peter Brooke, Peter Defaria, Philip Bulcock, Richard Dillane, Ritchie Coster, Roger Monk, Ron Dean, Ronan Summers, Sam Derence, Sarah Jayne Dunn, Sophia Hinshelwood, Thomas Gaitsch, Tom McElroy, Tommy "Tiny" Lister, Tommy Campbell, Tristan Tait, Vincent Riotta, Vincenzo Nicoli, Wai Wong, Walter Lewis, Will Zahrn, William Armstrong, William Fichtner, William Smillie, Winston Ellis

  • Crítica

    14/07/2008 00h00

    Sempre que o cinema se mete a adaptar um herói criado nos quadrinhos a resistência de fãs xiitas é intensa, assim como uma fiscalização excessiva das mudanças na transposição para outra linguagem. Sejamos claros. O cinema não deve ser obrigado a manter um nível de fidelidade de modo a não decepcionar os fãs do material original. Às vezes, é necessária até mesmo uma traição desse material para ser mais fiel a uma intenção mais ampla, que corrobore com a visão do diretor sobre o personagem, fidedigna ou não às idéias do criador.

    Por isso, não é justo que a cada filme com Batman pipoquem na internet especialistas julgando onde e como o filme pecou, como ele foi fiel à história original, ou em que seqüências o mundo que se conhecia dos quadrinhos desabou diante de uma nova informação visual.

    Batman - O Cavaleiro das Trevas tem material farto para detratores e entusiastas deitarem e rolarem, pois se abre a especulações e reclamações de todos os tipos, assim como carrega, talvez de maneira muito mais sutil do que queriam os fãs, o germe de tudo que fará a ruína pessoal de Bruce Wayne, escondido para sempre por trás do herói.

    Ou seja, mesmo quando trai as histórias contadas nos quadrinhos, é fiel à idéia do herói das cavernas, um sombrio defensor do bem que é e sempre será culpabilizado pelos dois lados da moeda: carrega a culpa pela escalada de violência, mas também incomoda os corruptos que transformam Gothan City em uma cidade à beira do inabitável.

    Este novo filme, então, mostra, mais ainda do que Batman Begins, a gênese da ida à escuridão pelo homem-morcego, condenado a ajudar o bem sem receber o devido crédito, a viver nas entranhas da lei sem receber dela qualquer amparo. Um herói maldito, romântico e trágico. Estamos, ainda, num período anterior ao mostrado naqueles quatro filmes anteriores à entrega do bastão para Christopher Nolan (O Grande Truque), diretor encarregado de compor um herói mais humano, mais próximo do homem real. Vemos um herói ainda tateante sobre sua condição, receoso de viver a vida inteira em função da defesa de sua cidade - a brutal Gothan City, dominada pelo crime organizado.

    Dos seis longas-metragens produzidos dentro da franquia da DC Comics com a Warner, coube a cada um dos três diretores contratados, a assinatura de dois episódios. Os dois primeiros foram dirigidos por Tim Burton (Sweeney Todd - O Barbeiro Demoníaco da Rua Fleet), com Michael Keaton (Fábrica de Loucuras) por baixo da armadura e da máscara. Burton submeteu o mundo de Batman ao seu próprio mundo, resvalando, muitas vezes, em uma superdose incômoda, um exagero de elementos sombrios que sufoca o estilo gótico do diretor. Foi o melhor cineasta a trabalhar com o material porque era dotado de um senso visual espetacular dentro de suas características soturnas, mas não era o mais indicado, o que se tornou claro em Batman (1989) e Batman - O Retorno (1992).

    Os dois projetos seguintes foram entregues a Joel Schumacher (Número 23). Batman Eternamente (1995) e Batman e Robin (1997) são exemplares carnavalescos que provocaram a ira dos fãs. Alguns cinéfilos aprovaram, mas a verdade é que a visão de cinema de Schumacher é pobre demais, e de nada adiantou ter dois atores melhores que Keaton vivendo o herói. Val Kilmer (Beijos e Tiros), no primeiro e George Clooney (Conduta de Risco), no segundo, não possuíam a dimensão trágica inerente ao personagem, que não consegue ser construída pela diluição de Schumacher.

    Chegamos, então, com Batman Begins (2005), à conjunção que se mostrou ideal. Christian Bale (Novo Mundo) evoluiu muito como ator. Não é mais o menino ridiculamente mimado de Império do Sol, nem o careteiro perdido de Velvet Goldmine. Bale, pode-se dizer, construiu um novo personagem, impregnou-o de um espírito de revolta, de um senso moral que faz do herói algo muito maior, amplificado e tornado um exemplo para o mundo, uma esperança de novos tempos. Christopher Nolan foi o diretor que anulou qualquer traço de autoria que se podia notar em seu trabalho anterior (especialmente em Following e Amnésia), para levar a franquia - que se encontrava em meio à desesperança, graças aos dois fiascos de Schumacher - a um patamar mais clássico, com uma história a ser contada da maneira mais direta possível, sem maneirismos e abrindo mão dos cacoetes de autor.

    Essa disposição de se despir do estilo deu ao herói uma dimensão que até então ele não tinha conseguido alcançar no cinema. Como o personagem é extremamente marcante, a maneira mais eficaz de captar toda sua grandeza é narrar a história de forma direta, criar uma noção de mundo semelhante à que estamos acostumados a ver e sentir, e inserir os elementos extraordinários naturalmente, tomando o devido cuidado para que a construção da narrativa não se abale e transforme o que vemos na tela em um mundo não factível com o que concebemos. Como a quantidade de informação contida neste novo filme é bem grande, existem momentos em que ficamos muito próximos de perder contato com essa realidade e, por conseqüência, perder empatia com o herói. Não ajuda que o diretor seja pouco hábil nas cenas de ação, que felizmente não são em grande número, ao menos se comparado a outros blockbusters atuais, mas são mal coreografadas o suficiente para que se tornem um pequeno problema para as ambições da produção.

    Felizmente, Nolan consegue controlar esses perigos, e sempre que seu filme ameaça descarrilar ele o contém com mão firme, e com a ajuda de um roteiro muito bem costurado por ele e seu irmão Jonathan Nolan, em cima da história criada em conjunto com o escudeiro fiel David S. Goyer. O apego a um relato bem construído faz com que os riscos sejam diminuídos, mesmo quando se ousa mais, como neste segundo trabalho de Nolan com o herói.

    Curiosamente, Batman - O Cavaleiro das Trevas é o filme mais diurno de toda a franquia. Algumas das cenas mais importantes para o desenrolar da trama acontecem durante o dia, sob raios de sol. O contraste com a situação final provocada pelo maior vilão vivido com intensidade por Heath Ledger (O Segredo de Brokeback Mountain), faz com que sua descida ao inferno seja ainda mais sensível, e nos prepara para o mundo sombrio que nos aguarda num terceiro episódio com a dupla Nolan/Bale.

    Falando no vilão, o Coringa, é necessário dizer que a criação de Ledger supera a de Jack Nicholson (Antes de Partir) no primeiro longa-metragem, o de 1989, e se confirma como o grande vilão enfrentado pelo herói no cinema, superior até que o Pingüim imortalizado por Danny DeVito (Irmãos Gêmeos) em Batman Returns. Não seria exagero dizer que a concepção de Ledger faz com que o Coringa já se insira entre os grandes vilões de toda a história do cinema. Suas motivações e seus rompantes de sarcasmo o transformam num ser que provoca, nem que seja por míseros e inconscientes segundos, um pouco de simpatia do espectador. É um grande mérito desse ator espetacular, que nos deixou justamente após nos entregar sua melhor representação nas telas.

    Os coadjuvantes também estão ótimos. Gary Oldman (Harry Potter e a Ordem da Fênix) tem seu melhor desempenho em muitos anos como o comissário Gordon; Aaron Eckhart (Dália Negra) está soberbo como o promotor humanista Harvey Dent; Maggie Gyllenhaal (Secretária) faz com que esqueçamos a performance de Katie Holmes (Loucas por Amor, Viciadas em Dinheiro) como a Rachel Dawes de Batman Begins, e Michael Caine (Filhos da Esperança) e Morgan Freeman (Antes de Partir) estão ainda mais à vontade como os dois braços direitos de Bruce Wayne, as consciências do homem por trás do herói, os conselheiros mais diretos de suas mais profundas decisões.

    Por todos esses acertos, e pela habilidade em contornar os eventuais problemas, Batman - O Cavaleiro das Trevas confirma Christopher Nolan (O Grande Truque) como o mais bem-sucedido recriador do personagem do herói mascarado no cinema.

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