Críticas

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BRANCA DE NEVE

(Blancanieves, 2012)

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01/07/2013 13h01
por Cristina Tavelin

No documentário O Homem e as Imagens, do cineasta francês Eric Rohmer, outro diretor lamenta o fato de o cinema ter ganhado diálogos tão cedo. René Clair acreditava, naquela época, que o potencial das imagens e da edição não havia sido bem explorado a ponto de a sétima arte ganhar outro suporte narrativo. Tendo como exemplos recentes O Artista e, agora, Branca de Neve, muita gente fará coro ao seu lamento.

Em cada passagem do novo longa mudo de Pablo Berger, fica claro o cuidado com enquadramento, edição, fotografia, trilha sonora. Talvez, o excesso de informação ao qual estamos expostos faça crescer o apreço por esse estilo cinematográfico, o torne essa exceção tão bem-vinda.

Adaptação da fábula dos Irmãos Grimm, a trama se passa na Espanha, onde a menina Carmencita perde os pais e encontra seu destino nas touradas. Filha da dançarina Carmem e do toureiro Antonio Villalta, sofre as injúrias da madrasta na primeira parte do filme, o qual ganha um ar mais circense na segunda metade quando segue uma excursão de anões.

Apesar de não manter-se fiel ao conto original, consegue inserir seus elementos principais – como a maçã envenenada – de maneira pertinente. Além disso, traz outras metáforas típicas das fábulas junto a uma crítica à sociedade do espetáculo, diferente das versões muito adocicadas de Walt Disney para histórias passadas de geração em geração.

Visualmente, o contraste inerente ao preto e branco e o uso do formato 16mm poderiam bancar uma estética interessante, mas Pablo Berger vai além, captando o desenho das sombras, seguindo suas linhas ao incidirem sobre cenários e traços dos personagens. A geometria desse jogo de luz é um recurso artístico do qual poucos diretores sabem tirar proveito.

Aliada à imagem, a trilha precisa bancar quase duas horas de filme, dar dinâmica a ele, fazê-lo dançar ou ficar mais lento. E alcança esse objetivo usando ritmos e instrumentos variados - desde o som fantasmagórico do teremim a palmas e violões flamencos, chegando apenas à voz com entonação cigana. Um deleite a parte.

A releitura desta fábula poderia cair no abismo de clichês se quisesse apenas copiar o estilo do cinema mudo, mas soube poupar aspectos como a dramaticidade exagerada dos atores (com algumas exceções da madrasta vivida por Maribel Verdú), ganhando um ar mais atual.

Mesclando silêncio e música aconchegantes em contrapartida ao barulho exagerado da maioria dos filmes da atualidade, Branca de Neve justifica as dezenas de prêmios conquistados mundo afora. É um prato cheio para quem deseja matar a saudade do cinema como forma de arte, indo além do mero entretenimento.

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