BRAVA GENTE BRASILEIRA

BRAVA GENTE BRASILEIRA

(Brava Gente Brasileira)

2000 , 103 MIN.

Gênero: Drama

Estréia:

página inicial do filme
  • Ficha técnica

    Direção

    • Lúcia Murat

    Equipe técnica

    Roteiro: Lúcia Murat

    Produção: René Bittencourt

    Fotografia: Lúcia Murat

    Trilha Sonora: Livio Trachtenberg

    Estúdio: Taiga Filmes

    Elenco

    Buza Ferraz, Diogo Infante, Floriano Peixoto, Leonardo Villar, Luciana Rigueira, Murilo Grossi e Sérgio Mamberti

  • Crítica

    22/05/2009 11h03

    Deixe a correria urbana do lado de fora. Acomode-se calmamente na poltrona do cinema, relaxe, respire fundo e prepare-se para entrar num ritmo totalmente diferente do seu. Prepare-se para uma viagem até o interior de um cruel Brasil colonial. Esta preparação é fundamental para curtir, em toda a sua grandeza, o filme Brava Gente Brasileira, terceiro longa metragem da carreira de Lúcia Murat (os outros são Que Bom Te Ver Viva e Doces Poderes).
    As primeiras cenas são difíceis para as platéias acostumadas ao frenético ritmo do cinemão americano. Logo ao apagar das luzes da sala de projeção, o público é jogado diretamente para a terra e para o barro da região do Pantanal, no final do século 18. Vozes portuguesas, brasileiras, espanholas e indígenas se misturam sem legendas. Com cortes rápidos e planos fechados, Lúcia propõe uma espécie de quebra-cabeças cinematográfico.
    Aos poucos, se delineia a história: a pedido do governador do Mato Grosso, o colonizador Diogo (ótima performance do ator português Diogo Infante) faz um mapeamento cartográfico e artístico da região do médio-Paraguai. Sua personalidade fina e aristocrática contrasta com a crueza quase selvagem de seus ajudantes Pedro (Floriano Peixoto) e Antonio (Buza Ferraz, numa interpretação surpreendente). O clima é de tensão. Perto dali, uma tribo de guerreiros Guaicurus prepara um casamento indígena. Está montado o cenário para uma explosão de violência racial, que culminará com a morte de vários índios e o estupro de Ànote (Luciana Rigueira, atriz premiada de Quem Matou Pixote?), uma princesa Guaicuru.
    “É um filme sobre a dificuldade de se lidar com as diferenças”, diz a diretora, que também é produtora e roteirista do filme. A trama, porém, vai muito além do preconceito puramente racial, abordando também aspectos dos mais variados preconceitos sociais. O rude Pedro desafia o letrado Diogo à prática de atos antes impensáveis, duvidando da sua masculinidade. “Homem que é homem tem de estar sempre provando”, afirma com convicção. Teoricamente justo e conciliador, o comandante militar, vivido por Leonardo Villar, não tem nenhum problema de consciência pelo fato de ter filhos mestiços com sua mulher indígena, ao mesmo tempo em que mantém uma esposa branca, da mesma forma que o homem branco não hesita em matar - ou fazer sexo - com as nativas. Se o assunto é preconceito, obviamente não poderia faltar a presença da Igreja, sempre ao lado dos poderosos e opressores, representada pela convincente interpretação de Sérgio Mamberti.
    Brava Gente Brasileira contou com um minucioso trabalho de pesquisa das culturas indígenas. Os “Kadiwéu” que aparecem na tela são os descendentes legítimos e diretos dos extintos Guaicurus e até hoje a tribo mantém as tradições de seus antepassados. Entre elas, as pinturas, retratadas no filme, e o domínio dos índios sobre os cavalos. Parte das filmagens foi realizada no Forte Coimbra original, na região de Corumbá, que se encontra ainda em razoável estado de conservação, e até o dialeto kadiwéu foi exaustivamente estudado por parte do elenco branco, para proporcionar maior realismo às cenas.
    O personagem do garoto mestiço Januya foi de fato interpretado por um menino mestiço: Adeilson Silva, de 12 anos, filho de índia com um branco sulista. O personagem não existia no roteiro original, mas foi criado após a equipe ter tomado contato com o menino Adeilson, portador de um biotipo muito especial que combina os traços indígenas com os alemães.
    O resultado é um filme forte, vigoroso, que marca um amplo amadurecimento fílmico da diretora, quando comparado aos seus trabalhos anteriores. Brava Gente Brasileira mostra cruamente o tripé formado pelos preconceitos, pela intolerância e por sua conseqüente violência. Exatamente o mesmo tripé que forjou e forja até hoje os caminhos da história do Brasil.

    17 de janeiro de 2001
    ______________________________
    Celso Sabadin é jornalista especializado em cinema desde 1980. Atualmente é crítico de cinema da Rede Bandeirantes de Rádio e Televisão e do Canal 21. Às sextas-feiras é colunista do Cineclick. [email protected]

Deixe seu comentário
comments powered by Disqus