BRÓDER

BRÓDER

(Bróder)

2009 , 92 MIN.

14 anos

Gênero: Drama

Estréia: 21/04/2011

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  • Ficha técnica

    Direção

    • Jeferson De

    Equipe técnica

    Roteiro: Jeferson De, Newton Cannito

    Produção: Paulo Boccato

    Fotografia: Gustavo Habda

    Trilha Sonora: João Marcello Bôscoli

    Estúdio: Glaz

    Distribuidora: Columbia Pictures

    Elenco

    Ailton Graça, Caio Blat, Cássia Kiss, Du Bronx, Gustavo Machado, João Acaiabe, Jonathan Haagensen, Silvio Guindane, Zezé Motta

  • Crítica

    19/04/2011 17h05

    Que ótima estreia de Jeferson De na direção de um longa-metragem! Bróder condensa a evolução narrativa dos 12 anos de carreira de um dos raros negros por trás das câmeras no cinema brasileiro. Multipremiado nos festivais de Paulínia e Gramado, o filme é um vigoroso ensaio sobre a impossibilidade de conciliar trajetórias que a vida tratou de distanciar.

    Três amigos de infância, separados há muito, se reencontram no bairro de origem – Capão Redondo, periferia de São Paulo – e trazem à tona um passado, ao mesmo tempo, triste e terno. Aquela pelada diária, o sabor único do bolo da mãe do amigo, um romance mal cicatrizado, lembranças de um passado irrecuperável, rivalizam com um futuro implacável com cada personagem. Sem firula: o caminho de cada um dos amigos já está definido, seja pela presença ou falta de opções.

    O jovem Jaiminho saiu do Capão e desembarcou na Espanha como uma promessa do futebol; Pibe também trocou de bairro, mas sem o glamour do amigo e sobrevive como corretor de imóveis; os dois voltam ao Capão para encontrar Marco Aurélio, o Macu, o único que continua por lá, e comemorar seu aniversário.

    Macunaíma branco

    No prefácio de uma das edições de Macunaíma, o escritor Mário de Andrade diz: “O que me interessou foi incontestavelmente a preocupação em que vivo de trabalhar e descobrir o mais que possa a entidade nacional dos brasileiros. Ora, depois de pelejar muito verifiquei uma coisa que me parece certa: o brasileiro não tem caráter. [...] E com a palavra caráter não determino apenas uma realidade moral não, em vez entendo a entidade psíquica permanente, se manifestando por tudo, nos costumes na ação exterior no sentimento na língua na História na andadura, tanto no bem como no mal. O brasileiro não tem caráter porque não possui nem civilização própria nem consciência tradicional.”

    Enquanto o Macunaíma de Mário de Andrade é “preto retinto filho do medo da noite”, o Macu de Bróder é um branco com gestual facilmente identificado como sendo do negro. Por isso que, apesar de algumas semelhanças, seria incompleto rotular Jeferson De como o Spike Lee brasileiro. Próximos por serem realizadores negros que colocam a negritude como protagonista na telona, mas distantes pelo discurso.

    Até porque nos Estados Unidos o que nivela a identidade e determina os conflitos históricos é, grosso modo, a etnia. No Brasil, o papo é mais complexo, menos preto no branco. Claro que isso não reafirma o clichê do paraíso da miscigenação, um sofisma que encobre o racismo cordial.

    O passado irrecuperável

    Na sua narrativa, Bróder é competente em duas frentes. Por um lado, permite interpretações mais sofisticadas sobre o que é ser negro no Brasil – tanto que em Gramado Caio Blat, que vive Macu, disse que “hoje posso encher a boca e dizer ‘Eu sou negão!’”. Por outro, agarra o espectador com uma história de lealdade, amizade e ternura, não dando brecha para os conservadores prontos para tachá-lo de “mais um filme de favela” ou “parece que o cinema brasileiro só fala de pobreza”. Créditos também para a contribuição de Newton Cannito no roteiro.

    Por mais que o tempo tenha passado, o carinho dos amigos continua lá. Mesmo que Jaiminho ande num luxuoso Hummer, Pibe de metrô e Macu de chinelos surrados. Há certos prazeres, como a cerveja gelada acompanhada de uma prosa descompromissada, que o passado não apaga. Ao mesmo tempo, há caminhos traçados na idade adulta que sorrateiramente afastam uma aproximação efetivamente íntima.

    Os amigos de Bróder estão neste limbo: a ternura da amizade permanece viva a ponto de cada um deles tomar sérias decisões para preservar uns aos outros. Porém, o caminho de Jaiminho, Pibe e Macu já tomou rumos distintos, como ilustra a linda cena do campo de futebol. Uma contradição insolúvel.

    Caio Blat, o negão

    Jeferson De fez algumas alterações na montagem em relação à cópia exibida em Paulínia e Gramado. Especialmente no início, mais árido e com menos trilha sonora (que custa caro e não coube no orçamento da produção).

    Com isso, os primeiros vinte minutos do filme são mais duros e a apresentação dos personagens fragmentada. Bróder começa um pouco titubeante e receoso, mas, após percorrer um terreno escorregadio, o filme entra inteiramente nos eixos e cresce imensamente do meio para o fim, encerrando-se num plano belíssimo que conversa diretamente com o cinema de Martin Scorsese.

    Um fator determinante para o carisma do filme é o desempenho de Caio Blat. Ator versátil, dessa vez ele toma uma direção diametralmente oposta ao restante de sua carreira, com a mesma pegada visceral que Lázaro Ramos mostrara em Madame Satã.

    Assim como no filme de Karim Aïnouz, o corpo ocupa um espaço importante da força de Bróder. Jaiminho venceu com o talento futebolístico, Cilene sobrevive como dançarina de uma boate. Já Macu, o herói sem caráter de Jeferson De, incorpora na andadura, como diria Mário de Andrade, todo o peso cultural de um lugar, numa interpretação inspirada em Stanislavski.

    Porém, seria injusto jogar louros apenas em Blat. Todo o elenco principal está afinado, contando ainda com participações de luxo de João Acaiabe e Zezé Motta como evangélicos fervorosos. Jonathan Haagensen se assemelha com o atacante Adriano, atual camisa 10 do Corinthians, enquanto Silvio Guindane (incrivelmente caracterizado como Spike Lee de óculos e cavanhaque) é novamente seguro no papel de pobre bom-moço – nos moldes de 5x Favela – Agora Por Nós Mesmos e De Passagem.

    Bróder é a somatória de boas escolhas – atores eficientes, câmera/fotografia com decisões certas, roteiro inteligente e direção segura. Um filme fundamental para entendermos o Brasil: como o Macunaíma branco de Jeferson De é tão negro quanto o Macunaíma “preto retinto filho do medo da noite” de Mário de Andrade?


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