CARA OU COROA

CARA OU COROA

(Cara ou Coroa)

2012 , 110 MIN.

12 anos

Gênero: Drama

Estréia: 07/09/2012

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  • Ficha técnica

    Direção

    • Ugo Giorgetti

    Equipe técnica

    Roteiro: Ugo Giorgetti

    Produção: Malu Oliveira

    Fotografia: Walter Carvalho

    Distribuidora: Vinny Filmes

    Elenco

    Andrea Tedesco, Danilo Grangheia, Eduardo Tornaghi, Emílio de Mello, Francisco Carvalho, Gabriela Rabelo, Geraldo Rodrigues, Hélio Cícero, Julia Feldens, Julia Ianina, Juliana Galdino, Otávio Augusto, Thaia Perez, Walmor Chagas

  • Crítica

    02/09/2012 16h00

    Sou tomado de certa tranquilidade cinéfila quando vou ao cinema assistir ao último filme do cineasta Ugo Giorgetti. Considero quase certo apreciar um trabalho bem realizado, feito com esmero e, mais importante, com roteiro bem trabalhado e personagens sólidos, mesmo que o resultado não seja brilhante, apenas mediano. Sente-se uma honestidade de autor nos filme do diretor, de quem tentou fazer o melhor, se esforçou para entregar um bom produto cultural. Foi assim com Festa, Sábado, Boleiros, O Príncipe, e também é assim com Cara ou Coroa, seu mais novo trabalho.

    Muito bem ambientado em São Paulo (como a maioria de seus filmes) do início dos anos 70, período em que o país vivia momentos de tensão e medo por causa do conflito entre ditadura e militantes de esquerda, Cara ou Coroa foge do relato costumeiro sobre a época – que prioriza a luta armada, demoniza os militares e ressalta a repressão e tortura – para contar uma história de pessoas reais e seu dia-a-dia de incertezas e hesitações diante de um momento de polarizações políticas e ideológicas.

    Cara ou Coroa tem bons personagens, como é praxe nos filmes de Giorgetti, mas ninguém se destaca como João Pedro (trabalho de fôlego do ator Emílio de Mello), um diretor repleto de problemas pessoais – ele está se separando da mulher e morando de favor na casa da irmã mística - e às voltas com a montagem de um espetáculo de Brecht. Ele, como todo artista independente da época, teme a censura, que pode castrar ou proibir a peça, mas é vítima também dos “companheiros” de esquerda, que apoiam o espetáculo, mas querem transformá-lo em peça de propaganda política a todo custo. Neste e em outros diversos momentos do filme vemos a polarização de pensamento compreendida no título do filme. Todo mundo, o tempo todo, é convocado a se posicionar deste ou daquele lado da trincheira ideológica. Não há espaço para um posicionamento alternativo e o diretor pontua muito bem essa dicotomia na tela.

    Geraldo Rodrigues, talentoso ator revelado como o filho evangélico de Linha de Passe, de Walter Salles e Daniela Thomas, vive Getúlio, irmão mais novo de João, um dramaturgo que tenta levar seu novo texto ao palco, enquanto vive uma paixão por Lilian (Julia Ianina, de Carandiru), neta de um general reformado do Exército interpretado por Walmor Chagas. O conflito central do filme ocorre quando os irmãos são obrigados a dar guarida, por um breve tempo, a dois perseguidos pelo regime. Sem ter para onde levar os militantes, encontram uma solução tão eficiente quanto absurda e perigosa, que envolve todos os personagens citados até aqui num verdadeiro suspense cheio de tensão, que Giorgetti conduz com habilidade.

    Neste universo de personagens fortes e bem construídos, algumas peças secundárias se encaixam mal na trama. Há, por exemplo, um tipo chato e inconveniente (interpretado por Carlos meceni), que vive sussurrando teorias conspiratórias e se esforça para parecer bem informado sobre os assuntos ligados ao regime. Era para ser o alívio cômico do filme, mas acaba sendo tão somente um chato inconveniente aos olhos do público, o que o torna supérfluo na trama. A crítica de teatro masculinizada e durona recém-saída da prisão, interpretada por Juliana Galdino, também parece ter sido inserida no filme para ocupar espaço, já que não tem a participação efeitiva no desenrolar da trama que o filme sugere de início.

    Nada disso, no entanto, tira o brilho de Cara ou Coroa, filme que conta com bela fotografia do mestre Walter Carvalho e direção de arte inteligente que reconstitui a época por meio de sutis detalhes cenográficos, promovendo uma viagem no tempo ao espectador sem a necessidade de grandes recursos técnicos. Mas o maior acerto do filme mesmo é retratar uma época por meio das relações cotidianas de personagens comuns, que se tornam verossímeis de imediato para audiência.Coisa comum no cinema argentino e rara por aqui.


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