CORPO FECHADO

CORPO FECHADO

(Unbreakable)

2000 , 107 MIN.

12 anos

Gênero: Suspense

Estréia:

página inicial do filme
  • Ficha técnica

    Direção

    • M. Night Shyamalan

    Equipe técnica

    Roteiro: M. Night Shyamalan

    Produção: Barry Mendel, M. Night Shyamalan, Sam Mercer

    Fotografia: Eduardo Serra

    Trilha Sonora: James Newton Howard

    Estúdio: Touchstone Pictures

    Elenco

    Bruce Willis, Charlayne Wooddward, Eamonn Walker, Robin Wright, Samuel L. Jackson, Spencer Treat Clark

  • Crítica

    22/05/2009 11h03

    A pergunta é inevitável: será que o novo filme do roteirista e diretor M. Night Shyamalan é tão bom quanto O Sexto Sentido, seu sucesso anterior? A resposta é rápida: sim, é. Felizmente para todos aqueles que gostam de cinema, Shyamalan não está sofrendo da “Síndrome de Orson Welles” ou “Síndrome de Giuseppe Tornattore”. Ou seja, certamente ele não será um cineasta de um sucesso só, como foram Welles (Cidadão Kane) e Tornattore (Cinema Paradiso). Em determinados aspectos, Corpo Fechado pode ser considerado até melhor que O Sexto Sentido.
    A primeira cena é ambientada em 1961, poucos minutos após o parto de uma criança negra. O médico, assustado, não consegue entender porque o bebê nasceu com os braços e as pernas quebradas. Em seguida, a ação corta para os dias de hoje e mostra a incrível história de um guarda de segurança que sobrevive - sem nenhum arranhão sequer – a um terrível acidente ferroviário, que matou 131 passageiros. O que um caso tem a ver com outro e como Shyamalan costurará as duas histórias não deve ser contado. É preciso ser visto.
    A exemplo do que já havia acontecido em O Sexto Sentido, Shyamalan demonstra uma rara habilidade em colocar a platéia dentro da história logo nos primeiros segundos do filme. Sua lente parece buscar a todo momento um ponto de vista espião, um olhar xereta de quem estivesse sempre à espreita, convidando desta forma o público a “espiar” junto. A câmera se movimenta com extrema leveza, parece flutuar, circunda os personagens e quase sempre os enxerga de um ângulo baixo, escondido. Assim, diretor e platéia criam uma espécie de cumplicidade, como se as lentes estivessem constantemente filmando algo proibido, que não pudesse ser mostrado e, conseqüentemente, aguçando assim a curiosidade do espectador. Fechando o cerco, a trilha sonora lentamente hipnotiza.
    O roteiro – primoroso, também de autoria do diretor – pode ser interpretado e compreendido de várias maneiras. Para quem não espera de um filme nada além de espetáculo e entretenimento, Corpo Fechado agrada. Tem suspense, uma ótima história, excelentes interpretações e um belo final. Para quem espera de um filme considerações filosóficas, variados níveis de leitura e uma provocação inteligente, Corpo Fechado agrada muito, muito mais.
    “Não há nada pior que não saber a nossa função na vida” ou “A realidade é muito maior que os limites dos desenhos de uma história em quadrinhos” – frases citadas pelo personagem de Samuel L. Jackson - são apenas duas das diversas provocações existenciais que o roteiro estimula. Elijah Price, o personagem de Jackson, é um homem fisicamente frágil, mentalmente forte, que busca em alguém que ainda não conhece as respostas para as perguntas mais profundas de sua existência. Ele não consegue, não quer e talvez não possa encontrar estas respostas sozinho.
    Em contraponto, o segurança David Dunne (Bruce Willis) carrega consigo a maldição de um corpo praticamente indestrutível (o “unbreakable” do título original) aliada à tristeza crônica e diária do desconhecimento de seu próprio eu. Ele nem pensa em encontrar as respostas sozinho, simplesmente porque nunca parou para sequer fazer as perguntas.
    Elijah e David misturarão as histórias de suas vidas, tendo como pano de fundo a instigante filosofia contida nos super-heróis dos quadrinhos. Melhor não dizer nada mais. Assim como O Sexto Sentido, Corpo Fechado também é cheio de surpresas e a melhor forma de apreciá-lo é entrando no cinema sem saber nada de sua história.
    De Shyamalan, sim, é preciso dizer muito. É preciso dizer, por exemplo, que este jovem indiano de 30 anos, filho de pais médicos, está trazendo novos ares de inteligência e criatividade ao cinema americano. É preciso dizer que, em termos formais, ele pode se transformar no novo mestre do suspense e, em termos de conteúdo, tem em sua bagagem toda a riqueza religiosa, esotérica e existencial de suas tradições asiáticas. Contra ele, paira apenas um peso: a terrível obrigação mercadológica de fazer um próximo filme igual ou melhor que O Sexto Sentido e Corpo Fechado. Se conseguir, será considerado um gênio do cinema. Afinal, Tarantino fez muito menos que Shyamalan e entrou para a turma dos queridinhos da mídia. O indiano também pode. E merece muito mais.
    Curiosidade final: à la Hitchcock, Shyamalan faz uma ponta no filme, no papel de um suposto portador de drogas, interpelado por Bruce Willis.

    17 de janeiro de 2001
    ________________________
    Celso Sabadin é jornalista especializado em cinema desde 1980. Atualmente é crítico de cinema da Rede Bandeirantes de Rádio e Televisão e do Canal 21. Às sextas-feiras é colunista do Cineclick. [email protected]

Deixe seu comentário
comments powered by Disqus