Cortinas Fechadas

CORTINAS FECHADAS

(Pardé)

2013 , 106 MIN.

14 anos

Gênero: Drama

Estréia: 10/04/2014

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  • Ficha técnica

    Direção

    • Jafar Panahi, Kambuzia Partovi

    Equipe técnica

    Roteiro: Jafar Panahi

    Produção: Jafar Panahi

    Fotografia: Mohammad Reza Jahanpanah

    Estúdio: Jafar Panahi Film Productions

    Montador: Jafar Panahi

    Distribuidora: Esfera Cultural

    Elenco

    Abolghasem Sobhani, Azadeh Torabi, Hadi Saeedi, Jafar Panahi, Kambuzia Partovi, Mahyar Jafaripour, Maryam Moqadam, Zeynab Kanoum

  • Crítica

    07/04/2014 13h57

    Atrás das cortinas, pode haver muita coisa: o início de um espetáculo, algo escondido, a ilusão do que está por vir. Todos esses sentidos cabem ao novo filme iraniano Cortinas Fechadas. Ousado, criativo e triste, expõe um emaranhado de sentimentos incômodos e desfaz as fronteiras entre gêneros cinematográficos. Mas está longe de ser entretenimento. O espectador precisa estar disposto a engajar-se nele.

    Para entender o complexo longa de Jafar Panahi, vencedor de melhor roteiro no Festival de Berlim em 2013, precisa-se adentrar a vida do próprio diretor. Em 2011, Panahi foi proibido pelo governo iraniano de filmar pelos 20 anos seguintes.

    O calvário começou a ser mostrado em Isto Não É Um Filme, onde colocou seu drama nas telas pela primeira vez ilegalmente. Agora, faz o mesmo de forma mais cuidadosa em termos de estética, numa metalinguagem - filme dentro de filme - bem articulada. Já que a repressão não cessa, os meios para driblá-la precisam evoluir.

    Essa necessidade de filmar escondido transparece na sensação de insegurança permeando toda a trama. A cena inicial traz o co-diretor Kamboziya Partovi chegando de taxi às portas de onde a história se passa. No papel de um roteirista em fuga (essas misturas entre realidade e ficção deixam a trama complexa), coloca grandes cortinas na casa onde apenas um cachorro lhe faz companhia.

    Uma passagem impactante mostra o animal de estimação em frente à TV vendo outro cão ser brutalmente sacrificado. No país, há uma campanha contra os pets, considerados impuros sob a lei islâmica. Um retrato agonizante da intransigência.

    A câmera confinada acompanha o dia a dia dos dois, que são surpreendidos pela aparição de outros fugitivos no meio da noite, Melika e seu irmão. Eles buscam refúgio e ignoram o fato de não serem bem-vindos. A narrativa ganha outro tom a partir dessa interação fora do comum entre os personagens.

    O irmão de Melika pede a Partovi para observá-la, pois é uma suicida em potencial. A referência à depressão do diretor após ser proibido de filmar é clara e se faz presente em diversos diálogos traduzindo sentimentos mórbidos. Quando a garota some, o roteirista tenta reconstruir sua versão dos fatos usando uma câmera de celular, trazendo a metalinguagem à superfície.

    Da metade para o final, Cortinas Fechadas sofre uma mudança brusca quando o próprio diretor entra em cena. A "realidade" adentra a casa por meio de várias situações: um roubo, a queda das cortinas, os pôsteres dos filmes de Panahi estampando as paredes. Assim, os outros personagens têm o caráter simbólico reforçado e assemelham-se a vozes em sua cabeça.

    As cortinas abertas dão a tônica dessa segunda parte. O discurso reprimido, não-dito, encontra expressão nas sutilezas das imagens, do que não pode ser escondido atrás dos panos de qualquer espetáculo político.

    Aos poucos, o roteirista e o cachorro dão espaço à personagem sinistra que flerta com a possibilidade de suicídio no mar - aquele mar tão amplo, livre e aberto, o qual torna a casa mais triste e prisional. A morte torna-se o único meio possível para a liberdade. Desde a cena inicial já somos preparados para essa ideia.

    Por um lado, o final deixa uma mensagem positiva se analisado pelos temas representados pelos personagens. Alguns ficam, outros se vão. Por outro, esses que se vão estariam saindo da casa, do país em questão? As interpretações são subjetivas, mas o ponto central é certo: mais que um filme, Cortinas Fechadas é um ato político. O segundo ato da repressão artística de Panahi. 

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