DIÁRIO DE UMA BUSCA

DIÁRIO DE UMA BUSCA

(Diário de uma Busca)

2010 , 104 MIN.

10 anos

Gênero: Documentário

Estréia: 26/08/2011

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  • Ficha técnica

    Direção

    • Flávia Castro

    Equipe técnica

    Roteiro: Flávia Castro

    Produção: Flávia Castro

    Fotografia: Paulo Castiglioni

    Estúdio: Tambellini Filmes

    Distribuidora: VideoFilmes

  • Crítica

    24/08/2011 18h28

    Se no poema de Drummond a pedra que estava no meio do caminho a quebrar a rotina era um colírio, para Diário de Uma Busca esse elemento de surpresa é um alívio e atende por um nome: infância. Não fossem os questionamentos infantis de quem não entende a seriedade adulta, teríamos apenas um documentário importante, com função social, a acompanhar a geração de exilados políticos da Ditadura Militar no Brasil (1964-85). Por existirem as crianças, temos um bom e terno filme. Sério, mas terno.

    “O que seus pais fazem da vida?”, pergunta uma colega de colégio à jovem Flávia. “Ah, eles fazem reunião”, responde a menina, sem nenhum pingo de ironia na afirmação. Para o espectador, uma resposta engraçada: seus pais fazem reunião? Quebra-se a sisudez com a perspectiva de uma criança que cresceu assistindo ao pais militantes escapando de golpes militares na América do Sul, morando em embaixadas, fugindo de batidas policiais de regimes ditatoriais.

    Pais, mães, casais e famílias de classe média que, quando o pau quebrou após a cessão de todas as liberdades no Ato Institucional nº5, passaram uma década fora do Brasil. Assistiram de longe ao tricampeonato da Seleção Brasileira, ao Milagre Econômico, ao desbunde de Caetano Veloso, à tortura e aos dribles de Zico.

    Mas é preciso conter a tentação de generalizar. Diário de Uma Busca, Melhor Documentário do Festival do Rio em 2010, não quer falar do mundo, mas de um pai: Celso Afonso Gay de Castro, pai da diretora Flavia Castro, que narra seu filme como um diário pessoal. Este documentário tem a interessante capacidade de centrar atenções em uma família e, com isso, jogar luzes em muitas outras que sequer conhecemos. Fala-se da História com uma pequena história.

    Da militância ao mistério

    O enredo de Celso é uma saga cujo roteiro começa parecido com o de militantes que se opuseram à ditadura e termina com um estranhíssimo mistério: aos 41 anos, morreu ao invadir, com um amigo, o apartamento de um alemão que integrara o alto escalão nazista. A polícia alega suicídio. Um legista contesta a hipótese. Uma trajetória que sai de um nobre lugar-comum (militante reprimido pela ditadura) e se encerra com um acontecimento nem um pouco digno de nota.

    Existem pelo menos quatro filmes dentro de Diário de Uma Busca, restando apenas a escolha por acessar o que mais parecer interessante. O mais óbvio é a busca de uma filha que tenta entender as decisões de seu pai, o real motivo de sua morte e recuperar o que houve de belo na turbulência da infância. Cartas trocadas pela família são um poderoso e terno instrumento narrativo.

    Um espectador mais militante pode optar por observar a vida de Celso como a de milhares de exilados, procurando diferenças e semelhanças, por exemplo, entre ele e Vladimir Palmeira, ex-presidente da UNE. Outra leitura plausível é o esforço de um filme em resumir a trajetória de um homem, mas reconhecer a limitação da.

    Pais e filhos

    A última porta de leitura, e que considero mais interessante, é o filme que não houve e não haverá. Diário de Uma Busca, também laureado com o Prêmio da Crítica em Gramado, não só é dirigido por Flávia Castro, mas narrado e conduzido pelo olhar da irmã mais velha. Porém, existe o mais novo, Joca, que participa pelas beiradas. Enquanto Flávia, no começo do exílio no Chile já tinha 6 anos, Joca era um bebê.

    Enquanto a menina cresceu já compreendendo um pouco do que se passava, Joca nunca teve explicações. “Ele era muito pequeno, ninguém precisava explicar nada”, diz uma tia. Por que o pai foi preso quando, no Chile, Salvador Allende sofreu um golpe militar? Por que estavam na embaixada argentina aos montes sem poder ir para casa? Por que não frequentavam a escola?

    Indiretamente, o documentário não é apenas a busca de uma filha pelo pai, mas também da confusão de um filho injuriado pelas decisões desse mesmo pai. Um dos grandes documentários de um tema político desde Cidadão Boilesen. Com várias portas: escolha a sua e entre.


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