Pôster de Divino Amor

DIVINO AMOR

(Divino Amor)

2019 , 101 MIN.

18 anos

Gênero: Drama

Estréia: 27/06/2019

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  • Onde assistir

    Programação

  • Ficha técnica

    Direção

    • Gabriel Mascaro

    Equipe técnica

    Roteiro: Esdras Bezerra, Gabriel Mascaro, Lucas Paraizo, Rachel Daisy Ellis

    Produção: Anthony Muir, Augusto Matte, Dan Wechsler, Eva Jakobsen, Jamal Zeinal Zade, Katrin Pors, Maria Ekerhovd, Matías De Bourguignon, Mikkel Jersin, Rachel Daisy Ellis, Rodrigo Plá, Sandino Saravia Vinay

    Fotografia: Diego García

    Trilha Sonora: Cláudio N., DJ Dolores, Juan Campodónico, Otávio Santos, Santiago Marrero

    Estúdio: Desvia, Jirafa, Malbicho Cine, Snowglobe Films

    Montador: Eduardo Serrano, Fernando Epstein, George Cragg, Lívia Serpa

    Distribuidora: Vitrine Filmes

    Elenco

    Dira Paes, Emílio de Mello, Júlio Machado, Mariana Nunes, Teca Pereira, Thalita Carauta, Tuna Dwek

  • Crítica

    22/07/2019 11h32

    Por Sara Cerqueira

    Em tempos de obscurantismo e atentados contra a cultura, o fazer cinema no Brasil se equilibra perigosamente na corda bamba. Não é incomum ler comentários em redes sociais e portais de notícia afirmando que todo e qualquer investimento em filmes nacionais é um desperdício de dinheiro, já que "aqui não se produz nada de bom". Uma constante que infelizmente tem ganhado força, em grande parte, graças à intolerância do governo atual. Elementos típicos de uma distopia.

    E por falar em distopias, obras como Divino Amor, do diretor Gabriel Mascaro, ultrapassam o caráter ficcional e, em tempos como o nosso, carregam um grande sinal de alerta contra o atraso. Na trama, estamos em 2027 e vivemos em um país que se diz teoricamente laico, mas que na prática é totalmente regido pelo neopentecostalismo. Joana (Dira Pires) é uma funcionária pública que trabalha com direito familiar e passa seus dias tentando convencer casais que querem se separar a não pedirem o divórcio. Casada com Danilo (Júlio Machado), ela sofre internamente por não conseguir gerar uma criança, tarefa importante para uma mulher em sua posição. Mas, quando ela finalmente consegue engravidar, sua fé é colocada à prova como nunca antes.

    A primeira coisa interessante a se observar nesse longa é que, apesar da presença de tecnologias bastante avançadas, o país todo regrediu imensamente. Os processos são mais burocráticos e o cotidiano é mais vagaroso, e todas as tecnologias são controladas pelo estado para monitorar as vidas das pessoas. Muitas cenas chegam a ser claustrofóbicas e, mesmo quando ninguém está vigiando a protagonista, sabemos que ela vigia a si própria.

    Além disso, a dualidade de papeis de gênero aqui salta aos olhos o tempo todo. Com uma paleta de cores que brinca com tons de rosa e azul, nos sentimos o tempo todo atados às convenções de gênero sobre as quais já vivemos; no entanto, não há questionamento algum, e sim naturalidade. E é nesse fator que o diretor aposta e acerta para prender nossa atenção.

    Apesar do caráter absurdo dos acontecimentos, é possível enxergar verdade em todos eles. E isso é o que mais perturba: por mais surreais e, em alguns momentos, risíveis que sejam as situações, é possível imaginar nosso país sendo regido por um regime teocrático evangélico. Gabriel Mascaro consegue, magistralmente, cumprir o dever de toda distopia: causar medo por ser minimamente possível de acontecer.

    O trabalho do elenco é muito eficiente. Joana Pires nos entrega uma protagonista que vivencia um arco dramático imenso, se mostrando extremamente resignada com a própria fé e crenças limitantes e, no segundo e terceiro ato, totalmente desnorteada e descrente, como a típica ovelha desbragada. Já Júlio Machado tem bem menos força interpretativa e, mesmo quando não está em cena com a personagem Joana, apresenta bem menos camadas. Ao lado de um talento como o de Dira Pires, o personagem fica bastante ofuscado.

    Com um final extremamente aberto e enigmático, o filme pode decepcionar os mais tradicionalistas, que esperam um desfecho pragmático. Para quem gosta de sair do cinema com as idéias chacoalhadas e várias possibilidades de interpretação, é uma ótima pedida.

    É importante dizer que Divino Amor não quer demonizar a fé das pessoas enquanto sentimento de genuína crença no divino; mas sim da institucionalização dela para dirigir a vida de todos os cidadãos. Ao invés de pintar pastores como vilões que roubam dinheiro das pessoas e igrejas como locais sombrios repletos de violência e intolerância, o filme assume a sintonia de um pesadelo ultra-realista para nos mostrar duas coisas: que brasileiro sabe fazer cinema como ninguém e que, se não mudarmos os caminhos seguidos até aqui, estaremos fadados a vivenciar a realidade de uma distopia.

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