DOLLS

DOLLS

(Dolls)

2002 , 113 MIN.

Gênero: Drama

Estréia:

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  • Ficha técnica

    Direção

    • Takeshi Kitano

    Equipe técnica

    Roteiro: Takeshi Kitano

    Produção: Masayuki Mori, Takio Yoshida

    Fotografia: Katsumi Yanagijima

    Trilha Sonora: Joe Hisaishi

    Elenco

    Chieko Matsubara, Hidetoshi Nishijima, Kyôko Fukada, Miho Kanno, Tatsuya Mihashi, Tsutomu Takeshige

  • Crítica

    22/05/2009 11h03

    Papel, caneta, palavras, inspiração. São as ferramentas que um poeta usa para fazer seu trabalho. O cineasta japonês Takeshi Kitano é um poeta do cinema. Roteiro, figurino, direção de arte e trilha sonora compõem, juntos, Dolls, mais uma de suas poesias.

    O bunraku, tradicional teatro de bonecos do Japão, foi a inspiração de Kitano para fazer este filme - por isso o nome, "Bonecos". As idéias vieram especialmente das histórias de Chikamatsu Monzaemon (1653-1724), o principal dramaturgo desse gênero. Criado no século 16, o bunraku conta histórias de amores que acabam de forma trágica, como as contadas em Dolls.

    Kitano mostra um amor muito diferente do que estamos acostumados a ver no cinema. Nada daquele sentimento redentor: em Dolls, o amor é a desgraça em três histórias. A primeira e principal mostra um jovem casal, Sawako (Miho Kanno) e Matsumoto (Hidetoshi Nishijima). O romance entre o dois é impedido quando o presidente da empresa onde Matsumoto trabalha o escolhe para ser seu genro. Os pais do rapaz fazem com que ele aceite o fim do romance com Sawako para se dar bem na vida ao se casar com a filha do chefe.

    No dia do casamento, dois amigos de Sawako procuram Matsumoto na igreja para lhe dizer que a ex tentou cometer suicídio, mas a manobra deu errado e ela perdera a memória. Matsumoto abandona a noiva no altar para ir atrás de seu grande amor, que está em estado catatônico no hospital. Sawako passa a viver dentro de seu próprio mundo e Matsumoto, em nome desse amor que ele abandonara pensando no sucesso, resolve deixar tudo para trás a fim de ficar com a amada, mesmo que na absoluta miséria. Abandonados por todos, os dois passam a vagar como mendigos. Andam, andam e andam, ligados um ao outro por uma corda vermelha para que Sawako não se perca. Como dois bonecos, seus rostos não inexpressivos, apesar de terem abandonado tudo para viver um amor. Este casal é o que representa os bonecos do bunraku, ligando as outras duas histórias.

    Hiro (Tatsuya Mihashi, do clássico de 1970 Tora! Tora! Tora!) é um chefão da Yakuza que, no passado, abandonou seu emprego em uma fábrica e a namorada, com quem almoçava todos os dias em um parque, para se juntar à máfia japonesa. Quando Hiro vai embora, ela promete que o esperaria naquele banco. Trinta anos depois, percebendo que a morte está cada dia mais perto, Hiro resolve voltar ao parque para ver se a namorada ainda estava por lá. Ela ficou no parque, todos os dias, esperando por ele com seu almoço. Sua vida resumia-se a preparar a comida e esperá-lo. O amor perdido alimentava suas esperanças. No entanto, quando Hiro retorna, ela não o reconhece.

    A terceira história tem como pano de fundo um fenômeno tipicamente japonês: a adoração pelas cantoras pop do país. Kyôko Fukada, cantora e atriz bem popular no Japão, vive Haruna, uma cantora pop. Nukui (Tsutomu Takeshige) é um de seus mais antigos e fiéis fãs. Depois de sofrer um acidente automobilístico, a cantora fica com o rosto desfigurado, o que faz com que ela se afaste da vida pública. Sem suportar a idéia de viver sem ver o rosto de seu ídolo novamente, Nukui prefere ficar cego. Seu amor por ela é tão intensamente platônico que, com um estilete, fura os próprios olhos. Antes, no entanto, observa uma foto de Haruna para que seja essa a imagem que ficará em sua recordação para sempre.

    Kitano é também o roteirista do filme e, para criar as histórias de Dolls, baseou-se em suas próprias experiências. Quando resolveu ser ator, também abandonou um grande amor. Em 1994, quando sofreu um grave acidente de moto, passou a receber uma série de cartas de fãs desesperadas por sua volta. Quando criança, conviveu bastante com a Yakuza, além de sempre ter visto em sua vizinhança um casal de mendigos unidos por uma corda. Essas histórias de Kitano são como as que vemos no filme. Ligando tudo isso, temos a fascinação antiga do diretor pelo bunraku, no qual sua avó era atuante.

    Assim como o roteiro, a estética é muito importante para construir o filme. Com Dolls, nesse sentido, Kitano aproxima-se de Akira Kurosawa (1910-1998), o mais importante cineasta japonês. Para criar os figurinos, inspirados nos bonecos do bunraku, Kitano chamou o estilista de alta-costura Yohji Yamamoto, com quem já trabalhou em Brother - A Máfia Japonesa. Já o diretor de fotografia Katsumi Yanagishima é parceiro de Kitano pela oitava vez. A estética em Dolls é tão marcante que acaba se tornando um elemento tão ou mais importante do que os atores. A emoção está presente mais no visual colorido do filme do que nos amantes trágicos, cujos rostos têm tanta expressão quanto os bonecos do bunraku.

    Antes de dirigir filmes, Kitano era conhecido somente como ator de comédia. Em 1989, ao dirigir seu primeiro longa (Violent Cop), Kitano passou a direcionar sua obra à violência, como em Hana-Bi, Fogos de Artifício (1997) - vencedor do Leão de Ouro no Festival de Veneza - e Brother - A Máfia Japonesa (2000). Dolls marca um caminho diferente na filmografia do diretor. Aqui, ele substitui a violência do corpo pela da alma. Não à toa, o diretor costuma dizer que Dolls é seu filme mais violento justamente por mostrar a violência do espírito e não da carne. A dor, por ser causada por um sentimento visto como redentor, é muito mais forte: "Não são bem armas que matam os personagens, mas o destino, as emoções aprisionadas", diz o cineasta.

    O fato de o filme mostrar o amor como algo que pode levar o homem à ruína é o que mais assusta justamente porque pode acontecer com você, comigo, com qualquer um. Ou pode ter acontecido. Encarar histórias de amor que dão certo é muito mais fácil, pois todos temos a esperança de viver aquilo que se passa na tela. No entanto, admitir que esse sentimento também pode ser a ruína de alguém é difícil. Dói, mas é real. Dolls, assim como as peças do bunraku, trabalha a tragédia que ronda os que amam. Por isso, ao mesmo tempo em que é agradável aos olhos, é perturbador.

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