Pôster de Dôssie Jango

DOSSIÊ JANGO

(Dossiê Jango)

2012 , 102 MIN.

12 anos

Gênero: Documentário

Estréia: 05/07/2013

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  • Ficha técnica

    Direção

    • Paulo Henrique Fontenelle

    Equipe técnica

    Roteiro: Paulo Henrique Fontenelle

    Trilha Sonora: Denílson Campos

    Estúdio: Canal Brasil

    Montador: Paulo Henrique Fontenelle

    Distribuidora: Distribuição Própria

  • Crítica

    01/07/2013 08h00

    O Brasil é um país que caminha a passos morosos quando o assunto é tirar debaixo do tapete a sujeira de seus anos de chumbo. Ao contrário de nações como a Argentina e o Chile, por aqui ninguém foi punido por seus crimes (militares e militantes) e ainda existem muitas dúvidas e controvérsias sobre o nefasto período em que os militares estiveram no poder. E ambiente de incertezas é campo fértil para todo tipo de elucubrações e teorias da conspiração, como a que sustenta Dossiê Jango.

    O presidente deposto pelos milicos em 1964 morreu de infarto numa fazenda na Argentina – era cardíaco e tomava remédios. Como não se achou necessário fazer uma autópsia na época, anos depois começou-se a especular que Goulart pudesse ter sido eliminado por envenenamento numa suposta ação rocambolesca e imaginativa na qual teriam trocado seus remédios por veneno.

    O documentário não apresenta nenhuma prova do suposto crime, apenas suposições. Algumas até risíveis, como o depoimento de Carlos Heitor Cony: "Não faz sentido a morte natural de Jango". Um homem de 57 anos, sedentário, apreciador de churrasco, sofrendo de problemas cardíacos e infeliz no exílio morre de infarto. Se isso não faz sentido, menos credibilidade ainda tem a tese de que alguém tenha trocado seus remédios por veneno numa fazenda nos rincões da Argentina.

    Dirigido por Paulo Henrique Fontenelle e produzido pelo Canal Brasil, Dossiê Jango é um documentário que não esconde suas duas claras pretensões: pintar a figura de João Goulart como a de um estadista preocupado com problemas sociais e inclinado a transformar o Brasil numa nação igualitária e defender a teoria de que, por causa disso, foi assassinado no exílio, mesmo que não representasse mais um perigo de fato para os militares.

    Para corroborar a tese de eliminação, o filme reúne provas e depoimentos de que, mesmo fora do país, Jango continuava a ser monitorado por serviços de inteligência do Cone Sul. Teria também supostamente sido incluído na lista da Operação Condor, de lideranças políticas que deveriam ser mortas por representarem uma ameaça comunista na América do Sul. Nada disso, no entanto, confirma o assassinato, mas põe lenha na fogueira conspiratória. 

    Muitos políticos de esquerda, é verdade, foram assassinados da forma costumeira como eram eliminados os desafetos dos militares: sequestrados, fuzilados em emboscadas ou mortos em atentados à bomba. Ninguém questiona em nenhum momento do longa porque só Jango teria sido morto com tanta sutileza e engenhosidade. Num paroxismo da teoria conspiratória, Dossiê Jango chega a especular que Juscelino Kubitschek e Carlos Larceda tiveram o mesmo fim.

    A única voz dissonante no filme é a de Moniz Bandeira, historiador que conviveu com Jango nos primeiros anos de exílio e acha a tese de assassinato fantasiosa. Este apenas cumpre a cota do contraponto no longa. A montagem privilegia os depoimentos de um ex-araponga uruguaio, hoje presidiário condenado por crimes comuns, que afirma que João Goulart foi assassinado. Além do falatório arrependido, não apresenta nenhuma prova concreta, apenas confirma que Jango era monitorado pelos serviços de inteligência, algo previsível.

    Como diz Moniz Bandeira no filme, a verdade histórica se constrói com provas e não com suposições. No terço final de Dossiê Jango o discurso conspiratório dá uma amainada e depoentes tomam a cautela de ressalvar que não se pode afirmar uma coisa nem outra. O filho de Goulart tenta agora uma autorização judicial para exumar o corpo do pai e tentar provar a tese de assassinato. Resta saber – e nenhum perito aparece no filme para confirmar – se é possível depois de tantos anos descobrir um suposto envenenamento apenas se examinando uma ossada. 

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