ENTRE VALES

ENTRE VALES

(Entre Vales)

2012 , 80 MIN.

16 anos

Gênero: Drama

Estréia: 08/05/2014

página inicial do filme
  • Ficha técnica

    Direção

    • Philippe Barcinski

    Equipe técnica

    Roteiro: Fabiana Werneck Barcinski, Philippe Barcinski

    Produção: Philippe Barcinski

    Fotografia: Walter Carvalho

    Trilha Sonora: Francisco Mário, Luca Raele, Rica Amabis, Tejo Damasceno

    Estúdio: Aurora Filmes

    Distribuidora: Imovision

    Elenco

    Ângelo Antônio, Daniel Hendler, Inês Peixoto, Matheus Restiffe, Melissa Vettore

  • Crítica

    07/05/2014 19h00

    São necessários alguns poucos minutos para o espectador se ver preso à trama de Entre Vales. O filme abre com a imagem de um homem dirigindo por uma estrada à noite. Ele está visivelmente transtornado, segura o volante com uma mão e uma garrafa de bebida na outra. Corta. Agora o vemos em outro cenário, um aterro sanitário. Cabelo desgrenhado, barba por fazer, ele caminha com dificuldade numa montanha de lixo catando refugos. Corta. O mesmo homem agora é mostrado asseado, trafegando num jipe na companhia do filho de 11 anos e tratando de negócios.

    Esse trabalho de montagem na abertura fisga o público de pronto. Queremos saber quem é esse cara e o que aconteceu com ele. Em seu segundo longa, o cineasta Philippe Barcinski (de Não Por Acaso) trata de dois temas recorrentes no cinema: identidade e perda. Com idas e vindas no tempo, nos apresenta Vicente (Ângelo Antônio), um empresário casado, bem-sucedido e pai de um menino com o qual é muito ligado.

    Paralelamente, conhecemos Antônio, a identidade que assumiu ao virar catador de lixo. O percurso que separa as duas etapas díspares da vida deste personagem vai sendo revelado aos poucos, com o desenrolar paralelo do cotidiano de Vicente e Antônio. O dia-a-dia deste consiste em sobreviver das sobras recicláveis que consegue garimpar em pilhas de lixo infestadas por urubus. Ele não tem onde morar e se ajeita como pode no lixão mesmo. Já Vicente mora numa espaçosa e confortável casa, mas aos poucos percebemos que o mundo à sua volta ameaça ruir. Perdas, afetivas e materiais, levaram Vicente a torna-se Antônio.

    Entre Vales é totalmente centrado em seu personagem principal e sua jornada de transformação, o que significa, em termos de produção, ter um ator principal capaz de expressar dramaticamente essa transfiguração dolorosa que separa as duas fases do personagem. A escolha de Ângelo Antônio foi um acerto. Capaz de se explicitar sentimentos com o olhar como poucos, ele simplesmente faz aquilo que só os bons no ofício de interpretar conseguem: nos fazer esquecer de que estamos vendo um ator em ação. Ele é Vicente e Antônio, com seus sofrimentos e percalços, e nós compartilhamos de sua aflição.

    Barcinski, também autor do roteiro ao lado da mulher, Fabiana Werneck, é do tipo de realizador preocupado com seu público. Leva às telas um roteiro bem acabado e o dirige com acerto. Sua câmera está sempre bem posicionada para sacar da cena não só o primordial, mas o subjacente. Entre Vales, no entanto, perde um pouco de sua intensidade próximo ao final. Ironicamente, o mesmo estilo de montagem que captura o espectador nos minutos iniciais do filme é o responsável pela esfriada.

    Quando descobrimos o acontecimento-chave que leva Vicente à sua derrocada, o filme revela seu principal segredo e começa a girar em falso a partir daí. A história, que até então havia sido conduzida num misto intenso de drama e suspense, entra em banho-maria. Barcinski conclui falando da incrível capacidade humana de se reerguer diante dos revezes da vida. Mas a metáfora final, uma analogia entre banho e renascimento, soa um tanto modesta diante do que foi visto antes.

Deixe seu comentário
comments powered by Disqus