ERA UMA VEZ EU, VERÔNICA

ERA UMA VEZ EU, VERÔNICA

(Era Uma Vez Eu, Verônica)

2012 , 90 MIN.

16 anos

Gênero: Drama

Estréia: 15/11/2012

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  • Ficha técnica

    Direção

    • Marcelo Gomes

    Equipe técnica

    Roteiro: Marcelo Gomes

    Produção: João Vieira Jr, Sara Silveira

    Fotografia: Mauro Pinheiro Jr

    Estúdio: Dezenove Cinema e Televisão, REC Produtores, Umedia

    Distribuidora: Imovision

    Elenco

    Hermila Guedes, Inaê Veríssimo, João Miguel, Renata Roberta, W. J. Solha

  • Crítica

    12/11/2012 22h03

    O público brasileiro, como o espectador de quase todo mundo, está acostumado com a linguagem clássica desenvolvida por Hollywood e predominante no chamado circuito comercial. Aquela instituída há muito tempo pelo filme O Nascimento de Uma Nação (1915), de D. W. Griffith. Basicamente são filmes com começo, meio e fim, ambientação real, arco dramático regular, clímax e, na grande maioria das vezes, final feliz.

    Esse modelo, graças à onipresente força do cinema americano no mundo, se tornou quase exigência para os espectadores. Quem foge disso, assume o risco. O diretor pernambucano Marcelo Gomes, do premiado Cinema, Aspirinas e Urubus (2005), é um dos cineastas brasileiros que gostam de fugir do padrão, assim como seu conterrâneo Cláudio Assis, do ótimo Febre do Rato. Ambos, no entanto, conseguem driblar o modelo clássico e, ainda assim, dialogar com o público, pois simplesmente se esforçam para isso.

    Gomes dá boa mostra dessa habilidade em Era Uma Vez Eu, Verônica. O longa é interessante e atrativo sem promover nenhum tipo de guinada ou reviravolta na vida cotidiana da personagem central. Não podemos dizer que Verônica, a protagonista, termina o filme como começa, pois, no espaço de tempo em que nos debruçamos sobre sua vida, ela toma decisões e amadurece suas dúvidas. Nada disso, no entanto, corresponde às tramas regulares com as quais a audiência está habituada.

    A produção tem como personagem central uma estudante de medicina recém-formada, interpretada com parcimônia e eficiência cênica por Hermila Guedes (O Céu de Suely). A jovem atravessa um período de crise não apenas em relação ao seu futuro profissional, mas também aos problemas comuns que permeiam a vida das pessoas. No seu caso, convive também com a doença do pai e uma relação amorosa (com o personagem vivido pelo ator João Miguel) que tem dúvidas se quer levar adiante.

    As hesitações e angústias existenciais de Verônica foram muito bem desenvolvidas por Hermila Guedes na tela, numa interpretação cinematográfica de fato, dessas que assomam na construção das sutilezas. E Gomes soube captar muito bem esse fragmento de vida de uma pessoa comum em crise. Isso ocorre, sobretudo, pelo fato de ter construído muito bem sua personagem.

    Não há nenhum grande acontecimento em Era Uma Vez Eu, Verônica. Não há apogeu nem arco dramático que conduza a um clímax. A ação desenvolvida não cresce e nem atinge nenhum ponto de ebulição, para depois arrefecer e a história, enfim, chegar a seu desfecho. Gomes sustenta todo seu roteiro nos conflitos internos de Verônica e no poder de reconhecimento que esses dramas existenciais podem ter com o público.

    Funciona e é também um exercício instigante para o espectador. Algumas cenas são bem representativas de nossa propensão a esperar que algo extraordinário ou chocante aconteça no minuto seguinte. Em determinado momento do filme, Verônica tem um encontro casual com um homem numa casa noturna e vai terminar a noite com o desconhecido num quarto de motel. Embriagada, resiste às investidas do amante de ocasião e prefere dormir. Somos instados a pensar no pior, no conflito, mas esquecemos que ele não está nesta ou em qualquer outra cena específica, mas na cabeça de Verônica.

    Só há desacerto em Era Uma Vez Eu, Verônica na condução do elenco assessório. Um melhor desenvolvimento dos coadjuvantes, como o namorado de Verônica, por exemplo, contribuiria para que nos imbuíssemos mais dos problemas da protagonista. No caso do personagem do ator João Miguel, isso fica ainda mais evidente. Crises pessoais afetam as pessoas no entorno, elas acabam sendo, inevitavelmente, a mira de nossas frustrações. Gente, no entanto, não é alvo estático e impassível. Reage e não é peça apática como o filme faz parecer.

    Exibido durante o 45º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro - de onde saiu vencedor ao lado do também pernambucano Eles Voltam - o filme agradou crítica e também público. Prova de que o equilíbrio é uma boa saída. Quem faz filme para si mesmo ou para meia dúzia de espectadores, fez um filme, mas não fez cinema. Marcelo Gomes foge dos padrões, ousa, mas procura o público.



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