ESTRANHAS LIGAÇÕES

ESTRANHAS LIGAÇÕES

(Carnage)

2002 , 130 MIN.

Gênero: Drama

Estréia:

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  • Ficha técnica

    Direção

    • Delphine Gleize

    Equipe técnica

    Roteiro: Delphine Gleize

    Produção: Jérôme Dopffer

    Fotografia: Crystel Fournier

    Trilha Sonora: Eric Neveux, Labo Orchestra

    Distribuidora: Califórnia Filmes

    Elenco

    Angela Molina, Bernard Sens, Chiara Mastroianni, Clovis Cornillac, Esther Gorintin, Féodor Atkine, Jacques Gamblin, Lio, Lucia Sanchez, Marilyne Even

  • Crítica

    22/05/2009 11h03

    Um touro morto; cinco partes de seu corpo espalhadas em cinco histórias de transformações, vida e morte. São essas as Estranhas Ligações que acontecem no longa de estréia da francesa Delphine Gleize, em uma série que se passa na Espanha e na França. Em comum, o cadáver de um touro morto em uma tourada no começo da película. Cinco partes de seu corpo - chifre, carne, olhos, orelha e ossos - são separadas em um frigorífico e invadem a vida dos protagonistas do filme.

    Em Madri, temos Victor (Julien Lescarret), jovem toureiro que participa de seu primeiro evento - o curioso é que, na vida real, Lescarret também é toureiro. O jovem é atingido pelo animal e fica entre a vida e a morte. No norte da França, a menina Winnie (Raphaëlle Molinier) observa a tourada pela TV com uma atenção fora do comum para uma menina de cinco anos. Durante todo o filme, percebemos que, de fato, ela não é uma menina normal, como comenta sua professora Jeanne (Lucia Sanchez) à mãe, Alicia (Ángela Molina), em viagem à Espanha, onde moram os pais da professora.

    Paralelamente, temos Betty (Lio), uma mulher grávida, entediada, cujo marido é um biólogo que recebe os olhos do touro para análise. Há também uma senhora que vive em um trailer com seu filho. Ambos empalham animais e são assustadoramente esquisitos - é na mão deles que param os chifres do touro. Na medida em que os personagens vão tendo contato com alguma parte do animal morto, transformações radicais acontecem em suas vidas.

    Estranhas Ligações é cheio de situações extremas: vida e morte, estagnação e transformação, tédio e ação, puro e profano, belo e repugnante.

    Em sua passagem pelo Brasil em 2003, a diretora contou que, lá pelos 12 anos, era apaixonada por touradas, assim como Winnie, personagem que ajuda a ligar as histórias. Com seu olhar inocente, adorável e onipresente, ela parece saber de tudo que acontece. Sua observação leva o ritmo das histórias, como se ela fosse a própria diretora. "Pode não parecer, mas foi muito difícil trabalhar com Raphaëlle. Eu a descobri na rua e ela não queria nunca fazer nada, não olhava para onde deveria", conta a diretora. O que não é de se estranhar, já que a atriz tinha exatamente cinco anos na época. No entanto, tanta dificuldade nem aparece na tela. Raphaëlle parece ser amiga íntima da câmera: sorri, chora, tem um ataque epilético com a mesma facilidade.

    Em seu filme, Delphine, que até então só havia dirigido trabalhos em curta-metragem, mostra sua paixão pela cultura latina. O longa começa em uma tourada, tipicamente espanhola, e passa por uma série de cenas de cores quentes, estouradas, em fotografia semelhante à dos filmes de Pedro Almodóvar. Paixão: é isso que a diretora vê na cultura latina. "Os franceses são frios e esse calor, essa paixão da cultura latina é o que me atrai a ela", diz.

    Um detalhe que deve satisfazer bastante aos espectadores brasileiros é a escolha da trilha sonora, não somente pela força das castanholas que acompanham a magnífica cena da tourada que abre o filme, mas pelo tema musical escolhido pela própria diretora para uma das histórias: Valsinha, na voz de Chico Buarque e Ney Matogrosso. Delphine conta que escolheu esse tema por causa da atriz portuguesa Lio (também cantora), que vive a grávida Betty em uma das histórias. A diretora conta que queria colocar como música algo que identificasse a atriz ao filme e encontrou na língua portuguesa uma forma de ligar a interprete à personagem. Isso sem contar a presença de Chiara Mastroianni, filha de Marcello e Catherine Deneuve, no elenco. A atriz não mostra a mesma desenvoltura dos pais frente à tela, mas é impossível não tê-la iluminada pela beleza de Chiara, muito parecida com a mãe - o que é sempre um deleite.

    Para um diretor, confundir-se com toda essa diversidade dentro de um filme é muito fácil e cabe a ele reger todos esses instrumentos. O filme de Delphine surpreende exatamente por isso, por ser forte, bem escrito (o roteiro também é dela), conexo. Não à toa, ganhou um prêmio no Festival de Cannes por Melhor Trabalho de Iniciante - categoria pela qual foi indicado no Cesar, principal prêmio do cinema francês. No Brasil, o primeiro prêmio veio neste mês, no 5º FIC (Festival Internacional de Cinema) de Brasília - Estranhas Ligações foi escolhido o melhor filme do evento.

    Estranhas Ligações é uma colcha de retalhos de histórias e de línguas, também por ser falado em francês, espanhol e italiano. Sua digestão acontece aos poucos, quando as idéias começam a fluir na cabeça do espectador. Deveria vir com o aviso: "melhor apreciado com moderação". Pense depois que ele terminar. Interpretações mil surgem, o que é mais delicioso no cinema: ver um filme para pensar.

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