ESTRELA SOLITÁRIA

ESTRELA SOLITÁRIA

(Don't Come Knocking)

2005 , 122 MIN.

Gênero: Drama

Estréia:

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  • Ficha técnica

    Direção

    • Wim Wenders

    Equipe técnica

    Roteiro: Sam Shepard, Wim Wenders

    Produção: In-Ah Lee, Karsten Brünig, Peter Schwartzkopff

    Fotografia: Franz Lustig

    Trilha Sonora: Joe Sublett, T-Bone Burnett

    Elenco

    Eva Marie Saint, Fairuza Balk, Gabriel Mann, Jessica Lange, Sam Shepard, Sarah Polley, Tim Roth

  • Crítica

    22/05/2009 11h03

    O filme abre com o plano de uma rocha imensa e depois mostra o deserto, aquele belo e imenso nada que atrai os espíritos angustiados, eternamente ansiando por liberdade. Assim como é o espírito de Howard Spence, personagem de Sam Shepard que sustenta esse filme como quem sustenta um deserto inteiro. Em 1984, Shepard e o diretor Win Wenders escreveram o clássico Paris, Texas. Depois da aclamada parceria, nunca mais produziram juntos. Estrela Solitária marca esse retorno com Shepard nas funções de roteirista e ator principal.

    Spence é um astro de filmes de faroeste - quase um Jesse James, dizem os cartazes - que a vida toda foi pago para beijar a mocinha antes dos créditos subirem, usar as drogas que quisesse todas as noites e dormir com as garotas que desejasse nos melhores hotéis que pudesse escolher. E essa vida dos sonhos era tão boa que o ator ficou uns 30 anos mergulhado nela sem se dar conta de que o tempo passou.

    Como tudo uma hora cansa, interpretar se tornou enfadonho e, repentinamente, Howard pulou fora do set de filmagem de mais um faroeste cuja única semelhança com os westerns clássicos era a paisagem - o mesmo Oeste americano de Paris Texas (1984) - e os clichês de roteiro. Estamos em uma época de diretores burocráticos financiados por empresas milionárias, comandadas por empresários que andam de helicóptero munidos com seus laptops. Um faroeste filmado nesses tempos pode ser ou algo cult ou simplesmente patético, mas nunca verdadeiro ou emocionante. Uma ótima personificação disso está no executivo responsável por encontrar o ator fujão, vivido por Tim Roth, que mostra a caretice de um mundo no qual as pessoas aparam a barba em máquinas portáteis no meio do deserto, porém não sabem lidar com o cardápio simples de uma lanchonete do interior.

    Howard foge desse cenário deprimente, destrói seus cartões de crédito e tudo o que o conectava ao mundo do cinema e refugia-se na casa de sua mãe (Eva Marie Saint), a simpática senhora que não visitava desde que iniciara sua carreira. Lá, se depara com dois choques que deve enfrentar ao retornar a vida dos "seres humanos normais": o fato de ter magoado pessoas nos anos em que estivera dentro de sua bolha e o fato de nada mais ser como antes - e isso não ter volta, assim como um bom faroeste. Dentro desse novo cenário, o protagonista descobre ter um filho, o que torna tudo ainda mais dramático.

    A busca pelo garoto não dura muito por que, no fundo, Howard sabia de tudo. Sabia onde o filho se encontrava, sabia quem era sua mãe (Jessica Lange) e, o mais importante, sabia identificar o garoto assim que olhasse em seus olhos - numa cena em que Earl (Gabriel Mann), seu filho, canta versão cabaré de Shake Rattle and Roll, com arranjo de T-Bone Burnett, um dos guitarristas de Bob Dylan e responsável pela trilha de Estrela Solitária. O que o astro de faroestes não sabia é como enfrentaria emoções como essas, quando seu espírito ficasse angustiado não por desejar sua liberdade, mas por ter ferido a liberdade alheia.

    O interessante em Estrela Solitária é ver que o protagonista não modifica sua personalidade ao longo dessa mudança de rumo. Não se trata do caso de uma pessoa que foi salva, iluminada, conheceu algum tipo de caminho do bem ou coisa assim. Howard continua durão, intransigente e farrista como antes, mas agora quer saber o que foi que deixou para trás ao longo desses anos. E isso que engrandece o personagem: o fato dele só ir amolecendo aos poucos - e nos momentos certos -, ganhando um ar humano. Afinal, os humanos não mudam da noite para o dia e erram, erram muito.

    O reencontro com a garçonete que engravidou enquanto filmava em um bar, com o seu filho rebelde e uma misteriosa garota que o segue sem esclarecer o motivo (Sarah Polley) o deixa ainda mais perdido. E, depois de uma série de inconsistentes tentativas de reconciliações, silêncios que querem dizer "não há nada a se dizer", o que parece é que Howard é dono de uma alma confusa cujo destino é não ter mesmo um caminho certo. Mas não fora tudo sempre assim?

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