EX ISTO

EX ISTO

(Ex Isto)

2010 , 86 MIN.

14 anos

Gênero: Drama

Estréia: 12/08/2011

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  • Ficha técnica

    Direção

    • Cao Guimarães

    Equipe técnica

    Roteiro: Cao Guimarães

    Estúdio: Itaú Cultural

    Distribuidora: Espaço Filmes

    Elenco

    João Miguel

  • Crítica

    08/08/2011 16h03

    Há de se elogiar, logo de cara, a criatividade de Ex Isto, filme que propõe um ponto de partida interessante: e se René Descartes, o símbolo da racionalidade, tivesse vindo ao Brasil com Maurício de Nassau, o colonizador holandês de Pernambuco? Mesmo que a originalidade não deva ser inteiramente atribuída ao filme, mas também ao livro que o inspira, Catatau, de Paulo Leminski, romance experimental de 1975 que primeiramente fez essa proposição na linguagem escrita. Porém, como este texto existe para comentar a existência de um filme existencialista, foquemos as atenções no trabalho de Cao Guimarães.

    Não cabe também limitar a análise a uma avaliação do que funcionou ou deixou de funcionar na transposição da linguagem literária à cinematográfica. Não só pelas diferenças de signos de cada uma delas, mas também pela falta de pretensão do filme em ser uma mera adaptação aos escritos de Leminski. Com isso, o filme estabelece duas esferas: as imagens que, perdão da cacofonia, imaginam a inexistente vinda de Descartes ao Brasil, e as palavras, que servem de estofo psicológico do filósofo do século 17.

    O fato é que são dois autores muito poderosos e com escrita própria. Leminski, em Catatau, trabalha o jogo de palavras, a transpiração, a poesia tirada do peito com agressividade. Já as imagens de Guimarães têm outra textura, dialogam com o tempo de maneira mais espaçada, com planos que se bastam e dispensam qualquer narração pleonástica.

    Daí o bifurcamento indissolúvel de Ex Isto: o texto que funciona como confessionário subjetivo de Descartes, o protagonista, é tão marcante quanto às imagens e sua capacidade em criar significados. A qual das duas devemos dar mais atenção? Por serem díspares, acabam se tornando inorgânicas, mesmo que a intenção do filme seja o uso harmônico da imagem com a palavra.

    Ex Isto prescinde não do livro no qual se baseia, mas do uso literal de trechos para servir como voz de Descartes, interpretado por João Miguel (Hotel Atlântico). Óbvio que, fã confesso de Leminski, o cineasta deve ter considerado fundamental fazer citações a Catatau, mas, no resultado final, tal gesto provou-se dispensável acessório.

    Mesmo que, no papel, as palavras de Leminski sejam brilhantes como ilustra essa passagem: “Que flecha é aquela no calcanhar daquilo? Picatacapau! Pela pena é persa, pela precisão do tiro — um mestre. Ora os mestres persas são sempre velhos. E mestre, persa e velho só pode ser Artaxerxes ou um irmão, ou um amigo, ou discípulo ou então simplesmente alguém que passava e atirou por despautério num momento gaudério de distração”.

    Talvez porque as imagens criadas por Guimarães tomam os olhos com facilidade, enquanto as palavras de Leminski sempre precisam de uma segunda leitura para além do aparente hermetismo.

    Anarquia meticulosa

    Como numa ficção tradicional, René Descartes é o protagonista com um arco dramático. No começo, um respeitável homem de trajes serenos e pensamento articulado. A racionalidade do método científico é sua característica, os livros são seu lugar de conforto.

    Até, obviamente, se aproximar do calor brasileiro. Com olhar assustado, ele escuta o som dos pássaros ao redor do rio e o movimento suave da água. Num ato solene, adentra Recife novamente pela água: um personagem do século 17 observando os cara-pálidas do século 21. Num rompante, acena para um barco ao seu lado cheio de turistas. Cena magistral, ruído do passado com o presente.

    Gestos que indicam que, enquanto Catatau “é o fracasso da lógica cartesiana branca no calor”, Ex Isto vai além e se posiciona como um manifesto pelo deslocamento, pela incerteza, pelo erro, pelo tato, não pelo pensar. Pelo instinto. A mesma defesa do recente Estrada Para Ythaca. Um filme sobre o pensamento racional sendo visitado pelas escolhas do instinto, um encontro das certezas externas com as incertezas internas.

    Mas até quando defende o jogar-se no desconhecido, o filme tem uma anarquia articulada, ao menos na construção das imagens. Quando se perde no calor da praia e interpreta o espírito libertário, João Miguel, ator incrível de um René Descartes à brasileira, é enquadrado pela câmera com simetria, mostrado quase como uma fórmula geométrica irretocável. Por que essa prisão no enquadramento quando se trata de um filme que contesta a força do pensamento lógico?

    A sensação é de um incômodo afastamento da liberdade do discurso com a contenção da forma. Ainda mais quando se trata de um universo poético como o de Leminski, franco defensor de movimentos sem hesitação.

    Claro que é bastante significativo ver uma representação do pai da matemática moderna estatelada na areia, nu, sob um sol escaldante. Mas se ele mesmo já se perdeu num filme que questiona a afirmação “penso, logo existo”, por que a câmera o observa com a geometria cartesiana?

    Comparado a outros longas de Cao Guimarães – como Andarilho, A Alma do Osso ou Acidente –, Ex Isto é uma homenagem até que comportada à obra de Paulo Leminski.



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