FAMÍLIA BRAZ - DOIS TEMPOS

FAMÍLIA BRAZ - DOIS TEMPOS

(Família Braz - Dois Tempos)

2011 , 74 MIN.

Gênero: Documentário

Estréia: 10/06/2011

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  • Ficha técnica

    Direção

    • Arthur Fontes, Dorrit Harazim

    Equipe técnica

    Produção: Eliana Soárez, João Moreira Salles, Maurício Andrade Ramos

    Fotografia: Alberto Bellezia

    Estúdio: VideoFilmes

    Distribuidora: VideoFilmes

  • Crítica

    09/06/2011 14h13

    Pode-se discutir que Família Braz – Dois Tempos não tem a mesma pulsão narrativa como a recente, e efervescente, produção documental brasileira. Mesmo assim, junção de um tema interessantíssimo à honestidade com que ele é desenvolvido fazem deste longa, vencedor do É Tudo Verdade, maior janela da América Latina para o documentário, um filme fundamental e de prazerosa apreciação.

    Como indica o título, existe um antes e um depois. O primeiro se refere ao fim da década de 1990, quando a jornalista Dorrit Harazim e o cineasta Arthur Fontes se uniram, dentro do projeto 6 Histórias Brasileiras, e acompanharam a rotina de uma família da Brasilândia, zona oeste da cidade de São Paulo, mesmo cenário da ficção Antonia. O segundo é em 2009, quando os realizadores voltaram ao local para conversar com a mesma família e mostrar se as expectativas de Seu Toninho, Dona Maria, Anderson, Denise, Gisele e Helder se confirmaram.

    O que aconteceu nesse intervalo de tempo? O crescimento da classe C e uma suave ascensão do poder de consumo da classe D, mobilidade geralmente atribuída ao crescimento da oferta de crédito e que dá a ilusão de que o Brasil tornou-se um país menos pobre. Inteiramente construído nas entrelinhas, Família Braz – Dois Tempos tem sensibilidade de acompanhar essa mudança por meio de personagens interessantes que atraem o espectador.

    Já na primeira cena, um impacto: os seis integrantes da família se alinham em frente a casa e se ancoram em quatro carros. Isso mesmo: quatro carros. “As pessoas acham que é luxo, mas é o único jeito da gente sair do bairro e se locomover”, diz Anderson, o filho mais velho e considerado o intelectual da casa.

    O documentário opta por uma apresentação até didática dos personagens para facilitar a aproximação do espectador e divide os dois tempos, 99 e 2009, em imagens em preto e branco e coloridas. A narração apenas costura os seis membros da família, concedendo a eles tomar as rédeas do discurso.

    Justamente essa discrição dos realizadores nos permite, a partir de Família Braz – Dois Tempos, fazer algumas projeções de Brasil. A mais séria delas: a percepção política praticamente inexiste. É como se os filhos Anderson, Denise, Gisele e Helder desfrutassem de opções de consumo que seus pais, Seu Toninho e Dona Maria, não tiveram quando jovens, mas não tivesse percepção de como isso se tornou possível.

    Dorrit e Fontes decidiram, nas entrevistas, não forçar perguntas e seguir apenas os temas que aflorassem. A política não foi um deles. Isso já diz, infelizmente, muito sobre o Brasil: quem é rico quer se manter no seleto grupo; a classe média reclama e quer manter a meia dúzia de fugazes privilégios que consegue ao longo da vida; o pobre só quer deixar de ser menos pobre.

    Mas, não se engane, pois Família Braz – Dois Tempos é um documentário sobre pessoas, não números. Temos suas histórias, particularidades (a determinação de Denise, a desenvoltura de Anderson), aspirações. É fato que o filme não tem a pretensão de fazer grandes elaborações sociopolíticas, mas a força do discurso nas entrelinhas que surge das entrevistas é impactante.

    Impagável, eu diria: é emocionante o momento em que Denise conta com estupefação a primeira vez que provou sushi. Evento aparentemente trivial, mas que tem, para ela, uma importância quase paradigmática. São essas nuances, aliadas à segurança narrativa, que fazem de Família Braz – Dois Tempos um documentário interessantíssimo.

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