FEBRE DO RATO

FEBRE DO RATO

(Febre do Rato)

2011 , 110 MIN.

Gênero: Drama

Estréia: 22/06/2012

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  • Ficha técnica

    Direção

    • Cláudio Assis

    Equipe técnica

    Roteiro: Hilton Lacerda

    Produção: Cláudio Assis, Julia Moraes

    Fotografia: Walter Carvalho

    Distribuidora: Imovision

    Elenco

    Ângela Leal, Conceição Camarotti, Hugo Gila, Irandhir Santos, Juliano Cazarré, Maria Gladys, Mariana Nunes, Matheus Nachtergaele, Nanda Costa, Tânia Granussi, Victor Araújo

  • Crítica

    21/06/2012 17h37

    Cláudio Assis é um cineasta criativo e ousado que se deixa levar pelas ideias. Sabe que a hesitação é apenas a antessala da mediocridade e mesmice e aposta alto num cinema criativo que se mostra um verdadeiro oásis em meio ao deserto de fórmulas recicladas e batidas que virou o cinema nacional atual.

    Seu novo longa, Febre do Rato, é passional, intenso e brilhante ao contar a história de Zizo (Irandhir Santos, impecável), um poeta marginal e libertário da grande Recife. Ele publica o tabloide anarquista que dá nome ao filme, escreve poesia para os amigos - como o casal Pazinho (Mateus Nachtergaele) e a travesti Vanessa (Tânia Moreno) – e faz sexo com Stellamaris (Maria Gladys) e Anja (Conceição Camaroti), mulheres distantes dos padrões impostos pela ditadura da beleza.

    Suas convicções de artista inconformista ameaçam ruir quando cruza o caminho de Eneida (Nanda Costa, de Sonhos Roubados), jovem de espírito livre que resiste às suas investidas e mexe com sua vaidade.

    A história de Zizo e seus amigos marginais é ambientada numa Recife belamente fotografada em preto-e-branco por Walter Carvalho, palco de típicos problemas urbanos, como favelas rivalizando com arranha-céus opulentos e poluição e barulho sufocando a vida de seus moradores. O poeta, ao divulgar cada nova edição do seu periódico, grita pelos alto-falantes de uma velha variant: "Vocês sabem o barulho que essa cidade tem. Vocês sabem o gosto. O cheiro."

    Apesar do engajamento de Zizo reverberar na tela, o filme não tem um tom panfletário, muito em função do equilíbrio de elementos do roteiro de Hilton Lacerda. É nítido que o filme foi trabalhado em seus detalhes para compor um todo hamonioso. Cláudio Assis não confunde anarquia temática com avacalhação no processo de produção. Tudo no filme é muito bem cuidado e lapidado. "É preciso ter respeito com o dinheiro público", disse Assis no último Cine Ceará, do qual saiu eleito melhor diretor.

    Existem inúmeras cenas ousadas e outras que transitam no limite do escândalo no longa, todas muito bem encenadas, enquadradas e de um furor dramático impressionante. Uma sequência explícita filmada de cima de um ménage à trois consegue impactar mais por sua beleza que pela ousadia. A crueza de genitálias expostas se transforma em poesia na mão do artista Cláudio Assis.

    Febre do Rato é apenas seu terceiro longa-metragem, mas no atual cenário nacional não há outro cineasta com uma cinematografia tão pungente. Ninguém ficou indiferente a Amarelo Manga, seu primeiro longa, lançado há dez anos no Festival de Brasília, nem a Baixio das Bestas, que veio cinco anos depois. Com Febre do Rato o incômodo e a surpresa se repetem no espectador.

    Mais do que um tipo inquieto e aguerrido, Assis volta a se afirmar como cineasta que domina plenamente o ofício. Seu filme lança a isca intelectual de que a arte pode servir como meio de libertação psicológica e criativa, uma válvula de escape e uma frente de guerrilha ao cerceamento das liberdades, ao lugar-comum e ao pensamento único que padroniza as vontades. E cinema ainda é arte, afinal.


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