Pôster de Ferrugem

FERRUGEM

(Ferrugem)

2018 , 100 MIN.

16 anos

Gênero: Drama

Estréia: 30/08/2018

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  • Ficha técnica

    Direção

    • Aly Muritiba

    Equipe técnica

    Roteiro: Aly Muritiba, George Moura, Jessica Candal

    Produção: Ana Catarina, Antonio Júnior, Fernando Meirelles, Guel Arraes

    Fotografia: Rui Poças

    Trilha Sonora: Fabian Oliver

    Estúdio: Grafo Audiovisual

    Montador: João Menna Barreto

    Distribuidora: Olhar Distribuição

    Elenco

    Clarissa Kiste, Dudah Azevedo, Enrique Diaz, Giovanni de Lorenzi, Igor Augustho, Pedro Inoue, Tifanny Dopke

  • Crítica

    28/08/2018 14h42

    Por Juliana Varella

    Adolescentes são naturalmente dramáticos, mas isso não quer dizer que seus dramas não sejam reais. Em Ferrugem, novo longa de Aly Muritiba (Para Minha Amada Morta), um ato tão cotidiano quanto filmar a própria vida com o celular acaba tendo consequências devastadoras para uma menina até então popular e confiante, um menino introvertido e cheio de problemas familiares e toda a comunidade escolar em torno deles.

    Tudo começa quando Tati (Tifanny Dopke), Renet (Giovanni De Lorenzi) e seus colegas de turma fazem uma excursão a um aquário. Lá, os dois começam a se envolver, mas ela percebe que perdeu seu celular e o clima é interrompido por uma busca coletiva, sem sucesso. No dia seguinte, tudo está diferente. Um vídeo íntimo, que estava naquele aparelho, foi descoberto e vazado para toda a escola.

    De repente, para Tati, o mundo que ela amava se tornou um lugar hostil. Na aula, aqueles que eram seus amigos fazem piadinhas com ela. Nos corredores, pessoas desconhecidas riem e lançam olhares maldosos. Até o segurança da escola parece ter visto as imagens e, pior, gostado delas. É como se o fato de um dia ter se exposto (mesmo que para um namorado) desse a qualquer outro homem o direito de tirar um pedaço dela. De uma hora para a outra, é como se ela não fosse mais uma pessoa. É como se ela fosse uma fantasia sexual. Uma piada. Um meme. Um nada.

    O filme escolhe dividir essa história em duas partes, na tentativa de trabalhar o problema por outros olhos – no caso, os de Renet. A primeira parte mostra o ponto de vista de Tati e a segunda, acompanha esse garoto quieto que está aos poucos se apaixonando por ela, mas é atingido por essa avalanche de acontecimentos e, sem ninguém para conversar, perde o chão.

    O problema é que Renet é um personagem inconsistente: sabemos pouco sobre ele e o que sabemos não nos convence de que ele tomaria as atitudes que toma. Não sabemos o que ele sente em relação ao vídeo, à colega, à escola, ao escândalo, a si mesmo; e, sem tudo isso, fica difícil acreditar em seus atos. Tudo o que sabemos é o que ele pensa sobre os pais – que estão separados e numa fase difícil – mas isso acaba servindo mais como distração do que como construção do personagem. Afinal, essa história não é sobre um garoto abandonado.

    O oposto vale para Tati: sua relação distante com os pais só reforça o isolamento que ela sente em relação ao mundo nesse momento específico. Conversar com eles nem chega a ser uma opção, já que ela teme um julgamento ainda maior, e esse muro que ela levanta em casa é o mesmo que todo adolescente, egocêntrico e incapaz de relativizar seus problemas, tende a construir. (É, inclusive, o mesmo que Renet constrói e que ocupa toda a segunda parte.)

    A verdade é que o filme, apesar de abordar um tema importante, falha ao tentar abraçar todos os outros problemas que vêm com ele e, nessa ambição, acaba perdendo o impacto. Há um pouco de tudo e muito de nada, e o espectador não sabe para onde olhar. Além da divulgação do vídeo, temos na trama uma amiga que vive um relacionamento aparentemente abusivo. Um casamento falido onde a mulher precisou abdicar da vida para cuidar dos filhos. Temos um pai irresponsável. Bullying. Machismo escancarado. Uma irmã mais nova que observa tudo. Posse de arma. Uma escola que se preocupa em proibir celulares mas não em dialogar com a vítima. Pais ricos e avoados. Pedofilia. Temos de tudo, tudo mesmo, só não temos foco.

    Por outro lado, o longa acerta num ponto em que muitos outros já erraram: seu universo é bem realista, tanto nos diálogos entre os estudantes quanto no retrato dessa visão de mundo jovem e trágica. O sofrimento é real. Dá para sentir a energia da sala de aula, o suor na quadra, o choro no chuveiro. O que não parece real é um pequeno detalhe: o vazamento do vídeo. Qual terá sido a motivação? Uma brincadeira? Uma vingança? Um ato impulsivo? Ingênuo? Seja como for, irrelevante ele certamente não era para ficar em segundo plano.

    Ferrugem foi o grande vencedor do Festival de Gramado com os prêmios de Melhor Filme, Roteiro e Desenho de Som. Estreia no dia 30 de agosto nos cinemas.

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