Críticas

Veja o que esperar das novidades nas telonas e estreias com os comentários da nossa equipe especializada.

HISTÓRIAS CRUZADAS

(The Help, 2011)

Estrela ativa Estrela ativa Estrela ativa Estrela ativa Estrela ativa Estrela ativa Estrela inativa Estrela inativa Estrela inativa Estrela inativa
01/02/2012 12h40
por Heitor Augusto
Histórias Cruzadas mostra que é possível flertar com o feel good movie sem descer a um nível humilhante de manipulação como Um Sonho Possível. Com um elenco feminino afinado e potente, a protagonista Viola Davis merece não só uma estatueta, mas um agradecimento da Academia por engrandecer o trabalho das atrizes.

Seria mais justo com o filme de Tate Taylor afastá-lo do gênero água com açúcar e colocá-lo mais próximo das intenções A Cor Púrpura, épico que Steven Spielberg fez em 1985 para contar a saga de uma família negra no sul dos Estados Unidos.

Inspirado no livro The Help, o filme de Taylor acompanha a saga de uma jovem aspirante a escritora (Emma Stone) determinada a contar os abusos raciais sofridos pelas governantas negras no Mississipi, estado sulista dos EUA. A primeira a ter coragem de romper o cordão do silêncio, opressão e violência é Aibileen (Viola).

O enredo é ambientado numa pequena cidade, Jacksontown, no começo dos anos 1960. Não há meio termo e a divisão é clara: uma elite branca, reacionária e escravocrata, representada pela malvada Hilly (Bryce Dallas Howard), e o contingente de mulheres negras cuja única alternativa de trabalho é ser governanta. A aguerrida Minny (Octavia Spencer, vencedora do Globo de Ouro de Atriz Coadjuvante) é uma delas.

Personagens femininas

Interessante notar o desnível de um país gigante como os Estados Unidos. O filme se passa no comecinho dos anos 1960, quando o movimento de Direitos Civis chacoalharia os norte-americanos. Mas no Mississipi de Histórias Cruzadas tem-se a impressão de viver no final do Século 19! Não fosse pela televisão em algumas cenas ou pelos carrões brilhantes, seria difícil identificar que o filme se passa nos anos 60, tamanho o atraso e o conservadorismo da região.

Outra sutileza de Histórias Cruzadas é a presença dominante das mulheres. São elas que comandam a ação, patroas ou empregadas, opressoras ou oprimidas. No geral, os maridos têm aparições pontuais – sejam brancos ou negros – e pouco louváveis, sempre para reforçar a ordem de “quem manda sou eu”. Não deixa de ser melancólico os almoços “beneficentes” das esposas ricas que nada têm a acrescentar ao mundo – mulheres que se parecem como troféus nas estantes dos maridos – ou de ser tocante a cumplicidade das governantas em se protegerem até onde for possível.

É na confiança das relações tecidas com paciência que o cordão se rompe. Claro que no afã de sensibilizar, Histórias Cruzadas também comete seus deslizes, como exageros na montagem didática (governanta é humilhada e na cena seguinte resolve contar como a categoria é aviltada diariamente). Ou no tom da música, às vezes um pouquinho acima do necessário.

Se comete enganos, porém, o filme também faz escolhas certas. Elas estão na qualidade do elenco (Octavia Spencer e Jessica Chastain são boas coadjuvantes), na fotografia (Stephen Goldblatt decide criar um sul colorido) e no uso preciso da narração em off. Sem contar a potência da história e do heroísmo dos personagens que assumiram riscos – uns mais, outros menos – quando as próprias vidas estavam em jogo.

Histórias Cruzadas é um filme sobre liberdade e já é o queridinho da cota negra anual de Hollywood. Se nos últimos anos o posto informal foi ocupado por Preciosa – Uma História de Esperança e Um Sonho Possível, é a vez do filme de Tate Taylor ser louvado.

Com certo merecimento, é verdade. Será justo se o reconhecimento vier em forma de pelo menos uma estatueta para Viola Davis.

FAVORITAR

crítica NÃO FAVORITADA

COMPARTILHE:

COMENTAR

comments powered by Disqus