HISTÓRIAS QUE SÓ EXISTEM QUANDO LEMBRADAS

HISTÓRIAS QUE SÓ EXISTEM QUANDO LEMBRADAS

(Histórias Que Só Existem Quando Lembradas)

2011 , 98 MIN.

12 anos

Gênero: Drama

Estréia: 06/07/2012

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  • Ficha técnica

    Direção

    • Júlia Murat

    Equipe técnica

    Roteiro: Felipe Sholl, Júlia Murat, Maria Clara Escobar

    Produção: Christian Boudier, Felicitas Raffo, Júlia Murat, Julia Solomonoff, Juliette Lepoutre, Lúcia Murat, Marie-Pierre Macia

    Fotografia: Lucio Bonelli

    Trilha Sonora: Lucas Marcier

    Estúdio: Alberto Salvá Produções Artísticas, Cepa Audiovisual, MPM Film

    Distribuidora: Vitrine Filmes

    Elenco

    Antônio dos Santos, Elias dos Santos, Evanilde Souza, Julião Rosa, Lisa E. Fávero, Luiz Serra, Manoelina dos Santos, Maria Aparecida Campos, Nelson Justiniano, Pedro Igreja, Ricardo Merkin, Sonia Guedes

  • Crítica

    03/07/2012 14h00

    “Aqui a gente se esquece de morrer”, diz Antônio, um dos personagens de Histórias que só Existem Quando Lembradas, em dado momento do filme. A frase contradiz o que se vê na tela. O lugar é um vilarejo fictício do Vale do Paraíba estacionado no tempo, ambiente onde a estreante Júlia Murat (filha da também cineasta Lúcia Murat) ambienta sua história que contrapõe velho e novo, passado e futuro, tradição e modernidade.

    No lugar tudo está morrendo, virando passado, inclusive seus moradores, mesmo que a frase do velho Antônio tente dissimular o óbvio. Ali a morte rege a vida de pessoas como Madalena (Sônia Guedes), padeira que vive presa à memória do marido falecido e enterrado no cemitério próximo à igreja. O local agora permanece trancado, como num esforço inútil de impedir a ida dos poucos que restam.

    Madalena passa seus dias numa rotina imutável, fazendo pão para o armazém de Antônio, caminhando por trilhos onde o trem já não passa há anos, limpando o portão do cemitério onde não se enterra mais ninguém, indo à missa diária e almoçando junto com os outros velhos habitantes da cidade. À noite, escreve cartas saudosas ao marido, palavras que ele nunca lerá.

    Sua rotina muda com a chegada da jovem fotógrafa Rita. De passagem, ela se hospeda na casa da idosa com quem convive por alguns dias. É da relação de poucas palavras que se estabelece entre as duas que Júlia tira o brilho de seu filme, um trabalho contemplativo e parcimonioso em sua narrativa que abre espaço para a reflexão da audiência, coisa rara hoje em dia. O roteiro bem construído é econômico nos diálogos e farto em imagens cheias de simbolismo, todas muito bem captadas. Filme equilibrado e enxuto, mérito difícil de identificar em diretores estreantes.

    A jovem Rita é a personificação da forasteira e como tal causa estranheza ao chegar. Sua juventude se contrapõe a tudo e a todos ali, mas o filme de Murat trata isso com muita sutileza, nada é explícito ou recai no lugar-comum do choque de gerações. Rita tampouco promove qualquer revolução no lugar e nas pessoas. Ao contrário, se mostra a princípio um tanto indiferente a todos e apenas interessada nos elementos estéticos que captura em suas câmeras.

    Apesar de nada ser evidente e explícito, o filme é permeado por um sentido de espera, uma tensão presente no dia-a-dia dos idosos que vivem a expectativa do esquecimento que se aproxima. Talvez as fotos de Rita sejam uma salvação, fazendo com suas histórias não sejam apagadas para sempre ao serem apreendidas no fotograma. A jovem, aos poucos, parece entender essa necessidade e seus registros fotográficos por vezes fundem num mesmo plano a imagem dos moradores às ruínas do lugar, eternizando ambos.

    Faltou à diretora dar mais dimensão à Rita, dando-lhe um passado que pudesse explicar sua presença ali e sinalizar seu futuro. Deixar a jovem numa espécie de limbo misterioso durante toda a trama enfraqueceu a personagem. O deslize, no entanto, não desmerece a boa estreia de Júlia Murat, que leva às telas uma produção acima de média para uma estreante em longa-metragem.

    Histórias que só Existem Quando Lembradas é um filme-prognóstico: e este parece prenunciar uma carreira promissora para a cineasta.


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