HONEYDRIPPER - DO BLUES AO ROCK

HONEYDRIPPER - DO BLUES AO ROCK

(Honeydripper)

2008 , 123 MIN.

14 anos

Gênero: Drama

Estréia:

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  • Ficha técnica

    Direção

    • John Sayles

    Equipe técnica

    Roteiro: John Sayles

    Produção: Maggie Renzi

    Distribuidora: Imovision

    Elenco

    Charles S. Dutton, Danny Glover, Davenia McFadden, Gary Clark Jr., Lisa Gay Hamilton, Mable John, Sean Patrick Thomas, Stacy Keach, Yaya da Costa

  • Crítica

    22/05/2009 11h03

    Era uma vez um Estado norte-americano chamado Alabama. Nele, no início dos anos 50, não existia mais escravidão. Oficialmente, claro, pois no cotidiano os negros trabalhavam a preço de banana nas plantações de algodão e o único direito que tinham era de permanecerem calados. Tempos em que estabelecimentos tinham entrada reservadas para "pessoas de cor". Esse tempo inspirou Mississip Goddam, canção em que Nina Simone explica, com poucas palavras, a condição dos negros: "Cães famintos no meu pé/ Crianças esquentando bancos de cadeia/ Gatos pretos no meu caminho/Tenho achado que cada dia será o meu último".

    É nesse tempo em que se passa a história de Honeydripper - Do Blues ao Rock. Para ser mais preciso, em 1950, em uma cidade ironicamente chamada Harmonia, onde reina a opressão aos negros. Praticamente toda a ação se passa em um simpático e decadente bar, cujo dono, Tyrone (Danny Glover), é um pianista que guarda glórias do passado sob um rosto repleto de rugas.

    Por se passar no período pré-direitos civis, esse contexto está latente no filme de John Sayles (diretor de Silver City e coroteirista de As Crônicas de Spiderwick). Porém, o foco de sua história está na música, especificamente em um episódio: a passagem do blues, digamos, tradicional, à incorporação de instrumentos elétricos. Junção que desembocaria no rock'n roll de Chuck Berry e, uma geração depois, seria condensada pelos Rolling Stones, nos centros urbanos, e por Neil Young, nas áreas mais rurais.

    Voluntária ou involuntariamente, essas duas facetas do filme - mudanças políticas e musicais - estão relacionadas. Ambos os períodos são de transição, cujos desdobramentos seriam percebidos nos agitados anos 60. Ponto para o roteiro de Sayles, que apesar de tornar óbvia a resolução de algumas situações, consegue abarcar um complexo panorama.

    No simpático bar de Tyrone, guitarra elétrica não entra, por determinação de seu dono. O verdadeiro blues só precisa mesmo de um piano, gaita e uma boa voz. Pena que o bonde que vem atrás, quando plugado em um amplificador, produz uma energia arrebatadora. Mal comparando, a mesma transição e sentimento que tiveram os sambistas brasileiros dos anos 40 e 50 nas escolas de samba, como Cartola e João da Baiana, que viram o bonde passar por cima com a estrondosa mudança do andamento ("Não era assim/ Que a bateria falava/ Não era assim").

    Mas as dívidas não largam do pé de Tyrone, nem os cachorros que esperam apenas um deslize para abocanhá-lo. O jeito é se render, bolar um plano mirabolante e deixar que o desconhecido Sonny Blake (o novato Gary Clark Jr. em boa performance) e sua guitarra elétrica tragam a salvação financeira ao bar.

    Para lidar com essa gama de informações e sequências musicais, Honeydripper - Do Blues ao Rock mostra uma fraqueza: a duração. Sayles gasta 124 minutos para contar essa história. Fiel ao cinema narrativo, o diretor, roteirista e montador não quer tirar nada do filme, pressupondo, talvez, que caso uma passagem fosse suprimida, o espectador se perderia no emaranhado de acontecimentos. Falha de roteiro. Uma série de sequências poderia ter sido limada do filme sem que ele perdesse a força de contar sua história. Mesmo assim, com as simpáticas músicas, atuações sinceras e boa reconstituição de época, o longa recria uma importante atmosfera. Pena que precise de tantas cenas para fazê-lo.

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