Pôster de Kin

KIN

(Kin)

2018 , 102 MIN.

14 anos

Gênero: Ação

Estréia: 06/09/2018

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  • Ficha técnica

    Direção

    • Jonathan Baker, Josh Baker

    Equipe técnica

    Roteiro: Daniel Casey, Jonathan Baker, Josh Baker

    Produção: Dan Cohen, David Gross, Jeff Arkuss, Jesse Shapira, Shawn Levy

    Fotografia: Larkin Seiple

    Trilha Sonora: Mogwai

    Estúdio: 21 Laps Entertainment, Lionsgate, No Trace Camping

    Montador: Mark Day

    Distribuidora: Paris Filmes

    Elenco

    Attila Sebesy, Bree Wasylenko, Carleigh Beverly, Carlos Pinder, Carrie Coon, Carson Manning, Dennis Quaid, Eli Ham, Gavin Fox, Ian Matthews, Ivan Sherry, Ivan Wanis-Ruiz, Jack Reynor, James Franco, Jonathan Cherry, Khalid Klein, Lily Gao, Myles Truitt, Romano Orzari, Shawn J. Hamilton, Stella Acquisto, Zoë Kravitz

  • Crítica

    30/08/2018 15h10

    Por Juliana Varella

    Gêneros, da forma como os conhecemos, nunca estiveram tão em baixa. Filmes de terror se misturam com sátiras sociais, super-heróis se aventuram em dramas psicológicos, ficções científicas invadem o terreno do romance adolescente e não há mais nenhuma caixinha grande o suficiente para caber uma obra inteira. Mas misturar coisas como realismo e fantasia não é tão fácil quanto parece e, às vezes, até que era perfeito no papel se revela, na tela, um confuso Frankenstein.

    É o caso de Kin, misto de ficção científica, drama familiar e road movie que chega aos cinemas no dia 6 de setembro. O filme gira em torno de Eli (Myles Truitt), um garoto negro de 14 anos que encontra, num prédio abandonado, uma misteriosa arma futurista. Num momento em que se discute o armamento até de professores escolares (e não apenas nos Estados Unidos), a escolha do tema parece pertinente, mas arriscada.

    O título significa "parentesco" em inglês e ter isso em mente ajuda a entender o filme. O protagonista foi adotado quando bebê e sempre se sentiu deslocado, ainda mais depois que sua mãe adotiva faleceu. O pai (Dennis Quaid) tenta mantê-lo longe de problemas exibindo uma permanente testa franzida, um pulso firme e algumas frases de efeito, mas é com o irmão mais velho Jimmy (Jack Reynor) que ele deveria se preocupar. Recém-saído da cadeia, Jimmy continua envolvido com um grupo de criminosos e vai colocar a família em risco por conta de um erro que cometeu na prisão.

    O longa oscila entre a relação de estranhamento entre Jimmy e Eli, que pouco se conhecem; a relação difícil entre eles e o pai; uma trama de fuga e perseguição entre os bandidos (liderados por James Franco) e os dois irmãos; e uma trama secundária sobre a origem da arma e os motoqueiros com capacetes pretos que estão atrás dela.

    Quem vê os materiais de divulgação em tons neon e ares de vídeo-game talvez pense que essa última parte seja a mais importante – afinal, é a "arma futurista" que nos promete algo diferente de um drama familiar convencional. Porém, o roteiro se esquece de que esse objeto tem um passado, um presente e uma mensagem em potencial e o trata meramente como um revólver (poderoso como uma bazuca, mas, ainda assim, familiar o suficiente para não levantar perguntas entre os personagens).

    O público, evidentemente, sente falta de explicações e elas só vêm nos minutos finais, mas são tão superficiais que é difícil levá-las a sério. Talvez alguma coisa tenha dado errado entre a concepção do mundo fantástico de onde vem a arma e sua tradução na tela, mas é mais provável que nunca tenha havido uma concepção para começar. Apesar disso, há claramente a pretensão de transformar Eli e sua bazuca futurista no centro de uma franquia – isso, se a recepção nos cinemas for positiva.

    Não é difícil perceber que Kin tem entre suas influências o universo de Pantera Negra (e o nome de Michael B. Jordan como produtor pode explicar), mas o filme ignora o motivo pelo qual aquele mundo afro-futurista – altamente subversivo independentemente de seu potencial bélico – fez tanto sucesso. Em Kin, a presença de uma arma ultratecnológica nas mãos de um garoto negro não representa mais do que uma repetição do velho clichê: quem tem a força bruta tem o poder. Não há nada de subversivo aí.

    Essa ideia é reforçada pelo incansável fetiche em torno da arma: Eli se admira no espelho segurando a descoberta, acaricia-a no banheiro às escondidas e é depois de vê-la em ação que uma mulher vivida por Zoë Kravitz decide se juntar à dupla. Isso até poderia render uma crítica social, ou quem sabe uma reflexão mais pesada sobre a influência da violência sobre crianças e adolescentes, mas não. O filme simplesmente não percebe o quão trágica é a imagem de uma criança atirando em alguém.

    Então, ao invés de usar o tema de forma consciente, o longa prefere suavizar o tom e acaba tornando o cenário, no mínimo, inverossímil. Estou falando de uma arma superpoderosa que, apesar de destruir uma pessoa tão facilmente quanto uma parede, não derrama uma única gota de sangue. Estou falando, também, de uma polícia americana que, diante de um irmão branco adulto e um irmão negro adolescente, prende o primeiro sem pensar duas vezes e oferece proteção e cuidado ao segundo (mesmo flagrando o garoto com uma arma gigantesca).

    Essas ilusões bem-intencionadas, colocadas lado a lado com imagens de um assalto feito pelos irmãos ou de uma visita deles a uma boate de strippers formam um quadro exato de todos os clichês tóxicos da Hollywood de uns dez anos atrás: uma indústria que dizia que tudo bem ser violento desde que o "outro" fosse o inimigo; que ser homem significava "defender os seus" e "impressionar mulheres"; e que, se as coisas não iam bem neste mundo, bastava sonhar com outro bem distante além do arco-íris. Pois, hoje em dia, até Hollywood já percebeu que estava errada. Alguém avise os produtores de Kin.

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