LEITE E FERRO

LEITE E FERRO

(Leite e Ferro)

2010 , 73 MIN.

12 anos

Gênero: Documentário

Estréia: 25/11/2011

página inicial do filme
  • Ficha técnica

    Direção

    • Cláudia Priscila

    Equipe técnica

    Distribuidora: Polifilmes

  • Crítica

    23/11/2011 11h48

    Melhor Documentário e Direção no Festival de Paulínia em 2010, Leite e Ferro apresenta um grupo de mulheres presas que acabam de se tornar mães. A maternidade para mulheres de periferia já fora habilmente abordada no cinema brasileiro com O Aborto dos Outros, de Carla Gallo, e em Meninas, de Sandra Werneck e Gisela Camara. No caso do filme de Cláudia Priscilla, o foco está no Centro de Atendimento Hospitalar à Mulher Presa (CAHMP).

    Leite e Ferro dá o primeiro passo: encontrar pessoas cujas histórias contribuem para o nosso entendimento como ser humano, além de serem suficientemente interessantes para manter a atenção durante o filme. Sem contar que o documentário tem a percepção da humanidade, dos códigos e da vida das entrevistadas.

    A principal força desse filme está nas personagens, seja pelas histórias a contar, a transformação causada pela maternidade, a relação de prazer e perigo com o tráfico e as drogas, a figura masculina. Mas uma das fraquezas de Leite e Ferro é também, e contraditoriamente, sua relação com as personagens.

    Durante a projeção em Paulínia, a plateia gargalhou em diversos momentos mais dramáticos do que cômicos. É o desprezo pelo código do outro vindo de um consumidor da classe média em contato com uma realidade de linguagem e comportamento diferente, de gírias e posturas sem recalque. Um público que encara aquelas mulheres como exóticas.

    Mas o documentário não deixa de ter sua participação nisso. Leite e Ferro é filmado como se estivesse em uma dinâmica de grupo, numa roda. Quem falar a coisa mais interessante no próximo momento terá a chance de segundos de fama. Fico com a sensação de que, apesar de ser natural num documentário o entrevistado interpretar a partir do momento em que a câmera é ligada, elas mais interpretam do que falam, são mais personagens de si do que pessoas que dividem sua vida em um documentário.

    Ressalto: afirmar isso não é entender que documentário e ficção têm uma barreira que impede o diálogo. É apontar a sensação de que, nesse filme, as pessoas mais se parecem com personagens que pensam na câmera.

    Leite e Ferro tem a proposta de acompanhar o cotidiano daquelas mulheres e entender como é a maternidade dentro de uma prisão. Nos aproximamos de suas vidas, mas fico com a sensação de que, se não tivesse uma câmera ligada à frente delas, as pessoas não seriam uma versão delas mesmas.

    Como filme, Cláudia Priscilla, jornalista de formação e diretora do bom curta-metragem Phedra, poderia ter se arriscado mais para, a partir das boas histórias que encontrou pela frente, ousar na linguagem. Manter o interesse não só pelas entrevistas, mas também com as imagens entre elas. Não rodar tanto em círculo e não ficar tão pendurada aos blocos temáticos (a prisão, o marido, a escolha dos nomes etc).

    Leite e Ferro consegue, ao menos, descobrir ricas histórias e nos provocar, como espectador, a perceber que, apesar dos códigos particulares da prisão, existe muito em comum lá e cá em relação à maternidade.


Deixe seu comentário
comments powered by Disqus